Não se cola o que quebrou


Eu tenho uma garrafa torta. Melhor, eu tinha uma garrafa torta. Penso que, se ela fosse uma mulher, seria uma mulher manca, dessas personagens machadianas, mulheres de Machado, afiadas. A garrafa não me cabe na bolsa, por ser grande; me afeta o perfeccionismo, por ser torta; e me confunde sobre minha hidratação, por não ser uniforme. Ela começa larga e se afina na ponta. É uma garrafa inútil, no fim das contas.

Da boca dela bebo água, porque nunca me atrevi a colocar ali dentro nada mais precioso. Ela é de vidro, pode estourar a qualquer momento, então é melhor não enchê-la, não incomodá-la. Apesar da sua inutilidade, quando é necessário lavá-la o faço com cuidado. Ela é torta, grande, estranha, mas não quero quebrá-la. Não quero gastar mais comprando outra coisa inútil, então ao menos mantenho as inutilidades que tenho.

Às vezes eu me esqueço de sua existência. Por muitas vezes isso acontece! E o problema é inteiro meu. É a minha boca que seca, é a minha garganta que arranha e é a minha urina que me rasga pedindo passagem. Eu odeio tanto essa garrafa. Ela me dá água quente, não consegue manter aquilo no seu interior em qualquer temperatura que seja. Eu odeio essa garrafa torta e inútil.

Sim, nós discutimos. Ultimamente ela representa pra mim um item de pequenas raivas e angústias. Por que você me traz água mas não oferece? Por que não me lembra que devo encostar minha boca na sua e beber-te? Por que apenas eu devo lembrar de ir até você? Sabe, garrafa, talvez eu tenha me cansado. Me cansado de toda sua tortura e da forma bamboleante que você andaria se fosse uma mulher viva. Você, larga por baixo e fina por cima, nessa tampa dura de inox com uma borracha alaranjada no fundo.

Um dia eu decidi, deliberadamente, quebrar a garrafa. A empurrei da mesa pro chão, fosse eu um gato com minha pata inquieta. Ela tamborilou, tamborilou e nada, não quebrou. Resistente a coisa torta. Insuportavelmente resistente a coisa torta. Quando e onde foi que a comprei? Já passou o prazo da devolução. Deixo ela lá, no chão, ao sol, borbulhando a água que não mais beberei e vou pra longe.

Algo que eu deveria saber: ela quebraria apenas, se, quando e como ela quisesse. Garrafa voluntariosa. Estava na pia da minha cozinha quando, por um vento estúpido, espatifou-se no chão. Ótimo! Já vai tarde! Mas precisava mesmo de toda essa bagunça? Garrafa torta inútil. Juntei todos os cacos numa sacola, deixei no quintal. Qualquer dia te coloco no lixo. Ou esqueço que você está aí até que uma visita me lembre "ei, o que é esse saco embalado com jornais no meio do seu quintal?".

Obviamente, sua tampa ficou pra trás, foi a primeira coisa que vi no chão da cozinha ao voltar. Chutei pra perto da porta. De garrafa inútil a peso de porta inútil. Algumas coisas nunca mudam. Eu é que não estragaria minha coluna abaixando pra recolher seus restos. Você que não iria embora fácil assim.

Há quanto tempo você quebrou? Hoje, logo pela manhã, ao colocar o pé esquerdo no chão pra me levantar da cama, uma dor. Olho mais de perto e lá está, um caco seu. Por quanto tempo vou ficar encontrando cacos seus pela casa? Vou ficar pisando neles até não ter mais pés? Garrafa estúpida! Garrafa torta inútil e estúpida! Garrafa!!!

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