Está tudo apagado


Você já parou pra pensar que nós matamos as borrachas aos poucos pra corrigir nossos erros? Pensei nisso esses dias enquanto estava na editora do jornal.

Eu sou velho. Sou da época do lápis no papel e não o abandonei até hoje. O que faz de mim um assassino ainda pior. Ao invés de cancelar a existência inexistente de letras no computador, eu insisto em continuar escrevendo-as no papel e as assassinando na sequência.

Por algum período eu experimentei não apagar, mas só riscar. Meu estagiário, que passa meus garranchos pro computador pra poder publicar, reclamou comigo que estava muito confuso e bagunçado, e pediu que eu voltasse a usar borracha.

- Mas você já parou pra pensar que nós matamos as borrachas aos poucos pra corrigir nossos erros?

- Oi?! Como é?

- Sim. Matamos essas pobres e inocentes coisas por erros que nós cometemos e não elas. As reduzimos lentamente, quase como uma tortura, tirando sua massa corpórea aos poucos, transformando aquilo em pequenos restos que jogamos no lixo. E esse processo se repete até não haver mais borracha. Até matarmos as pobrezinhos.

- Sô Juarez, borrachas não tem vida. Não sei se o senhor sabe, mas elas são um tanto inanimadas.

- Quem é você pra julgar o que tem ou não vida? Além de ser deus pra matá-las quer ser deus também pra determinar o que vive ou não? Ora!

O estagiário saiu fazendo uma cara que tenho recebido muito nos últimos anos: cara de quem me olha dizendo que estou lelé da cuca.

Resolvi escrever um grande texto explicativo sobre o paradoxo das borrachas e o nosso instinto de deus. Ficou bastante incrível o texto, devo dizer. Matei um quarto de borracha durante o processo de escrita. Mas, para minha surpresa, o jornal não aprovou. O chefe disse que não haviam pessoas interessadas naquilo, mal haviam pessoas que ainda usavam borrachas, e isso seriam as crianças que (primeiro) não liam jornais e (segundo) ainda que lessem, não precisavam carregar esse trauma inútil e infundado.

Inútil e infundado. Tudo bem. Peguei meu manuscrito e coloquei fogo. A minha intenção primeira era pegar uma boa borracha e sair apagando tudo, pra matá-la até o fim. Apagar todas as letras de todas as páginas que falavam sobre o extermínio inconsciente das borrachas. Mas pensei que seria uma metalinguagem muito radical da minha parte. 

Outra coisa que pensei foi: e se as borrachas fossem pessoas? E então é que me ocorreu: estou cercado de pessoas-borrachas. Me bastou um minuto de pensamento para perceber. Na redação do jornal, o chefe toma uma decisão errada, e dispara contra seus subordinados; os redatores escrevem ideias erradas nos textos que os estagiários organizam, depois os culpam por aquilo; fui um mau marido por todo o meu casamento e quando minha esposa decidiu ir embora, bem...

Liguei meu computador, que há tempos não usava. Comecei a digitar, nada mais de borrachas para mim. Não serei mais um assassino convicto e deliberado. Iniciei a escrita de um texto muito similar ao que havia queimado há pouco, com uma diferença muito sutil: troquei as borrachas por pessoas. "Você já parou pra pensar que nós matamos as pessoas aos poucos pra corrigir nossos erros?"

Foi o texto mais elogiado de toda a minha longa carreira como escrevente de jornal. Vai ser publicado na próxima edição. Vê se compra.

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