Despetalada, ainda bela, flor


Laura fica com a mãe, Dona Vilma todos os dias pela manhã. No restante do dia, Dona Cidinha é quem cuida da senhora não tão idosa. Numa quarta feira: 

- Bom dia, Dona Cidinha! - cumprimenta Laura

- Oi Dona Laura! Tudo bem com a senhora? 

- Tudo bem... Como está mamãe? Passou bem a noite?

- Passou, Dona Laura. Dormiu tranquila. Mas ficou conversando até alta madrugada, então hoje deve acordar mais tarde.

- Tá certo, muito obrigada, Dona Cidinha. Vou fazer um café até ela acordar...

Meia hora depois:

- Alice! Alice, me devolve meus chinelos, eu vou levantar! - Dona Vilma acorda

- Mamãe, bom dia! Sou eu, Laura!

- Alice, cadê a Alice? Pede meus chinelos pra ela.

- Mamãe, sua gatinha Alice fugiu há anos, sou eu, Laura, sua filha. Seus chinelos estão aqui.

- Alice fugiu? Ah, gata danada! Mas tem muito tempo? Ela dormiu comigo! Como você deixou ela fugir?

- Mamãe, a Alice fugiu eu era moça ainda, tem muitos anos, e... - Dona Vilma fez cara de triste - Pois é, mamãe! Alice é muito esperta! Estava dormindo com a senhora, aí eu cheguei e ela saiu correndo pra rua.

- Ela vai voltar?     

- Vai, vai sim! Já estamos procurando por ela.

- Hum...

- Está com fome? Vamos tomar o café da manhã?

- Oi, Laura! Que bom te ver, minha filha! Você veio tomar café comigo? Vou pedir pra Lia passar um café. Lia!!!

- A Lia já foi, mamãe. Eu mesma fiz o café, vamos?

- Vamos.

Entre uma mastigação e outra, Laura e Dona Vilma na cozinha:

- Como vai o casamento, Sofia? - inicia Dona Vilma

- Vai bem tia, estou morando em Cataguases, a senhora lembra?

- Ah... Veio só me ver?

- Foi, tia! Devo voltar pra lá hoje ainda...

- Ah... E como estão seus filhos, Neide?

- Estão bem, mamãe. Luísa está fazendo um curso na França e Rodrigo acabou de se formar em Química.

- Lembra quando nós fomos à França, Judite?

- Claro, minha amiga! Foi uma viagem inesquecível!

- Foi mesmo... Foi no avião que eu te conheci, não foi Roberto?

- Foi sim, minha querida. - uma lágrima.

- E então nós nos casamos e fomos tão felizes...

- Ainda somos, meu amor.

- Roberto, tenho uma notícia para te dar.

- Pois diga, querida!

- Estou grávida! Se for homem vai ser Enzo, mas se for mulher vai se chamar Laura.

- Minh... - a resposta não foi capaz de sair.

- Mas quero muito que seja Laura...

A última xícara de chá.

- Rita, minha netinha, ajuda a vovó a ir pra cama?

- Claro, vó!

Na cama:

- Laura, minha filha querida, que bom que você veio! Mamãe ama tanto você... Faz o almoço pra nós?

- Claro, mãe! Vou fazer aquela lasanha que a senhora gosta.

- Hmmm, que delícia!

Beijou-lhe a testa e foi para a cozinha.


Dona Vilma não almoçou nesse dia. 

Comentários

  1. Sensibilidade genuína, Ana. Impressionante como em meio a um momento de impressão de monotonia, acontece algo que surpreende. São surpresas assim, definitivamente, as mais surpreendentes. Parabéns! Belo texto.

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