O inseto feminino

Odeio baratas. Imensamente.

É um bicho asqueroso, não tem quem goste. Mas no meu caso, não tenho para com esse inseto apenas uma chata indiferença. Sinto asco. Nojo. Revolta pela existência de um bicho como esse que foge da morte e, quando a encontra, a dribla de todas as formas possíveis. Difícil de morrer.

Nunca precisei matar baratas. Quando as via na rua, apenas atravessada desesperadamente para a outra calçada. Quando as via em casa ou no trabalho, sempre tinha alguém que as matasse por mim. Elas tem um cheiro muito específico. Quando entro num lugar com um desses equívocos da natureza, logo sei. Logo sinto e inicio uma busca desconfiada com o olhar. Sou sempre a primeira pessoa a encontrá-las. É como se tivéssemos uma conexão estúpida. Mesmo quando estou fechado em meu carro, já vi inúmeras delas atravessando as ruas em frente aos meus faróis.

Bichos detestáveis.

Certa noite, estava sentado na beirada da minha cama com um copo de bebida à mão. Comecei a tirar meus sapatos quando eis que surge, bem à minha frente, uma barata. Um inseto enorme, gordo, quase preto de tão escuro.

Senti um fio de suor escorrer pela minha testa, engoli seco com minha garganta que segurava um enorme grito e estremeci um pouco meu corpo paralisado. Cacete. Tem uma barata aqui.

O inseto ficou tão imóvel quanto eu. Às vezes mexia as antenas como se fosse cega e tentasse por elas entender a situação. Ela me encarava, como se se perguntasse o que eu faria a seguir. Se isso fosse um jogo estúpido que os jovens jogam esta certamente seria a última fase. Se isso é uma ironia bastante real do destino, a morte chegou pra mim em forma de barata e não de foice.

Penso que vou enfartar sentado à beira da cama e o bicho já está preparado para subir no meu corpo débil e, sabe-se lá, me comer. Coloquei vagarosamente o copo de bebida na cama. Coloquei a mão que o segurava em meu peito e senti meu coração berrando lá dentro. É isso. Chegou a hora. O inferno veio me buscar em forma de uma barata. 

Num pequeno tremor do meu corpo um dos meus sapatos caiu ao chão, o que fez com que o inseto corresse um pouco para o lado. Mas ainda estava ali na minha frente, olhando pra mim. Inseto estúpido. 

Resolvi me levantar da cama, mas fiz um movimento rápido demais pra quem faceava o desespero e carregava a morte no peito. Me desequilibrei e caí, derrubando toda a minha bebida sobre o inseto. Caí deitado de bruços, na frente do meu rosto uma poça de álcool com um inseto no meio, a poucos dedos dos meus olhos.

O inseto se aproximou perigosa e insolentemente de mim. Mexi meu braço devagar para segurar o copo que milagrosamente não havia quebrado, enquanto o inseto mexia suas antenas encostando em meu nariz.

Inseto asqueroso, inseto insolente, inseto estúpido. Num movimento rápido que nunca pensei conseguir fazer, fechei a barata dentro do meu copo vazio. Ali dentro ela enlouqueceu, começou a dar voltas e mais voltas naquela redoma de vidro onde eu a havia encerrado. Ela, A barata. A fêmea, o feminino. Mulher estúpida. Se não tivesse sido deixado não precisaria estar sozinho com essa barata ridícula rindo da minha cara. 

Arrastei aquele copo com a peste até a cozinha. Peguei uma bacia, derramei todo o meu álcool nela. Coloquei a bacia num nível abaixo do piso da cozinha, onde havia um pequeno degrau. Empurrei o copo com o pé e a barata logo estava afogada em álcool. Risquei um fósforo, coloquei a bacia em chamas e nela queimava o inseto. A barata se revirava toda em completo desespero, cada segundo mais preta por causa do fogo.  Eu gargalhei alucinadamente na minha cozinha quase escura. Morra, barata! Morra, mulher! Sua coisa asquerosa! Sem qualquer valor!

Quando o fogo acabou, peguei aquela coisa nojenta por uma antena. As patas ainda tinham um reflexo estranho, abrindo e fechando um pouco, como se tremessem. Andei com aquele bicho na ponta dos dedos até o armário, de onde tirei uma caixa de ferramentas. Andei até meu banheiro. Vi meu reflexo no espelho, estava péssimo. Horrível, acabado, retrato de um infarto mal sucedido. 

Segurei a barata à minha frente, encostei-a no espelho. Abri a caixa de ferramentas de onde tirei um martelo e o apoiei na pia, e então tirei um prego. Furei a barata com a ponta metálica afiada e enferrujada. Dali saiu um líquido mal cheiroso e fez-se um barulho oco, perfurador. Segurei o inseto ali em meio a espasmos e comecei a martelar, e martelar, e martelar.

O espelho trincado, uma barata morta com um prego bem no meio do peito, líquido nojento escorrendo até a pia. Não fui eu quem morreu, barata estúpida. Nem serei. Barata alguma jamais me matará! Caminhei pra fora do banheiro, não antes de ver aquela maldita antena se mexer. Apaguei a luz do banheiro e saí.

Não dormi um segundo aquela noite. Passei a madrugada no sofá com quatro garrafas de bebida. O sol bateu na minha cara, me avisando que chegara o dia, que eu deveria viver. Me levantei cambaleando do sofá e fui até o banheiro, rir da desgraça da minha inimiga abatida.

O espelho trincado, um prego fixo no meio do espelho, o vidro completamente limpo. Nenhum líquido nojento, nenhum inseto morto incinerado e perfurado. Nenhuma barata.

Um grito profundo e ensurdecedor no banheiro.

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