Caneca, via de regra, é a junção de um pequeno recipiente com um bracinho dobrado do lado, que as pessoas chamam de asa (nunca entendi).
A minha avozinha tinha uma coleção de canecas, algumas muito incríveis e outras nem tanto. E, lá no fundo, uma caneca sem graça, com uma cor não definida entre o cinza e o branco encardido, com a boca torta e a asa feita com uma geometria duvidosa. Era uma caneca diferentona que ninguém estava autorizado a usar e minha avó se recusava a lembrar de onde ela tinha vindo.
Eram tempos estranhos os que vivíamos. Depois que o mundo saiu de uma pandemia (bizarra) as mudanças foram acontecendo de forma tão lenta que nós, os estúpidos seres humanos, só nos tocamos quando tudo já estava virado.
Passamos 24 horas de sol pra depois entender que o dia havia invertido com a noite, o leste tinha virado oeste e o vento soprou pro outro lado. Péssimo momento pros terraplanistas duvidarem da nossa bolota.
Os cientistas nunca tiveram tanto trabalho, criaram até um canal televisivo só pra eles passarem boletins diários da nossa situação de caos, mas a audiência era muito baixa, o canal foi cancelado.
É, o planeta mudou, seus habitantes... quem dera.
A audiência estava voltada pra reality shows, o que era estranho, se formos pensar. Acabamos de sair de um extenso período de confinamento e a nossa diversão é assistir pessoas confinadas. Esses humanos tem que acabar. Ops.
Ah, eles começaram a acreditar também em umas ledas muito antigas, de umas civilizações há muito abduzidas e num negócio que eu nunca entendi chamado horóscopo. As vezes faziam esse tal de copinho (apelidamos carinhosamente nossa dúvida) em formas circulares, outras em alguma coisa parecida com tabelas. Tinham símbolos estranhos, alguns com nomes de bicho e tinha um monte de planeta no meio da bagunça. O nosso inclusive.
Bom, dado o cenário, fato é que um dia a paranoia generalizou.
Estávamos eu e uma amiga na casa da minha avó quando bateram na porta uns caras muito estranhos. Eles mostraram um distintivo que não soube dizer do que era, mas entendi que eu deveria respeitar e ter medo. Depois, mostraram uma foto da caneca estranha da minha avó e perguntaram se eu conhecia aquele artefato. Que artefato o que, gente! Aquilo era uma caneca, ca-ne-ca. E das bem feias e mal feitas.
Mas, obviamente, eu fiz o certo a se fazer quando toda autoridade te pergunta alguma coisa: menti.
Jamais vi aquilo! Nem sabia o que era um artefato, imagina conviver com um.
Ele insistiu que aquilo era importante, que poderia estar ali o futuro do planetinha. Tive certeza então que não teríamos futuro, nosso futuro era um grande vazio dentro da caneca esquisita da minha avó.
Então ele começou a desesperar e dizer que era um objeto perigoso. Eu não cedi.
Eles foram embora e eu fui direto pro fundo do armário pegar a caneca.
Não tinha absolutamente nada de especial naquele negócio. Tinha no máximo um aspecto diferente, e digo isso num sentido bastante negativo, que fique claro.
Minha amiga e eu pegamos a caneca e saímos com ela escondida. Não sabíamos muito bem o que fazer com aquilo, mas talvez se observada no lugar certo na hora certa, vai que a gente via alguma coisa?
Coloquei a caneca por baixo do meu moletom e seguimos andando um tanto sem rumo.
Em alguma parte do caminho notamos que estávamos sendo seguidas por vários homens muito parecidos entre si e parecidos também com aquele que chamou lá na casa da minha avó. Começamos a correr como se não houvesse amanhã. E, de fato, essa era uma certeza que ninguém mais tinha.
Corremos por alguns quarteirões, esbarramos em alguns humanos, até que cheguei no canto de uma rua esbaforida. Me apoiei nos joelhos pra respirar mas vi que eles se aproximavam.
Então peguei a caneca de dentro da blusa e a levantei bem alto. Eles desaceleraram. Ninguém entendia nada, o que uma garota fazia esbaforida no meio da rua levantando uma caneca?!
Eu fui andando de costas, tentando olhar todas as pessoas que queriam minha caneca. Minha amiga tinha acabado de me alcançar quando, de repente...
Minha mão foi aberta (sim, porque eu não abri a mão voluntariamente) e a caneca simplesmente caiu na rua e se espatifou.
Nesse momento começaram a tocar sirenes por toda parte, como se estivéssemos numa guerra! Os homens que queriam a caneca vieram correndo na nossa direção se comunicando através de mini rádios. Nós duas não nos mexemos, claro.
Mas aí foi o que aconteceu de mais estranho. As pessoas que andavam na rua, como se nada estivesse acontecendo, foram acometidas por um desespero gigante, se aglomeraram em volta dos homens que estavam aglomerados em volta (do que restou) da caneca e começaram a chorar e gritar desesperados:
- Aconteceu algo horrível!
Caos. Os motoristas sentindo o mesmo desespero e querendo urgentemente chegar até o objeto quebrado batiam os carros, a polícia tentava abrir caminho no meio da multidão, luzes de segurança por toda parte.
Caramba, é só a caneca da minha avó!!!
Olhei pra minha amiga, com o olhar duvidoso:
- Vamos escrever sobre essa caneca - ela disse olhando os cacos no chão.

Comentários
Postar um comentário