Logo de cara quando nasci a primeira coisa que fiz foi decepcionar minha mãe, que esperava uma menina. Essa foi a primeira de uma longa lista de decepções.
Eu, menino, costumava me deitar no chão e imaginar uma pequena antena saindo da minha testa. Dela piscava uma luzinha azul que funcionava como um localizador pra alguém me encontrar ali.
Enquanto jovem eu descobri que tinha cinco de mim dentro da minha cabeça, eram os meus eus. Ao longo do tempo consegui organizar reuniões entre eles pra que pelo menos eles parassem de falar um junto com o outro e eu, homem, acabasse falando meio embolado.
Foi só depois de um tempo aqui nesse lugar, num universo muito particular que chamei de meu, é que algumas coisas começaram a fazer sentido.
Eu entendi que minha vida era guiada por ciclos lunares, mesmo sem que eu soubesse. E eu encontrei em um par de olhos pretos algumas galáxias distantes e solitárias que me fizeram me sentir em casa. Eu entendi que talvez eu fosse de lá, daquele lugar.
Os pares de olhos de galáxia me mostraram que o meu coração era grande demais pra esse planetinha com nome de solo. Por isso talvez a sensação de não pertencimento que eu carreguei por tanto tempo.
Os meus eus ficaram muito satisfeitos com o entendimento, era como se tudo começasse a fazer sentido. Então a escolha era um tanto óbvia e o ciclo lunar era propício. Eu iria me aventurar pela vida, pelo universo e tudo mais com aquele par de olhos de galáxia.
É o que deveria ser feito, é como eu sei que as coisas vão ficar bem. Troquei a longa lista de decepções por uma infinita lista de momentos que fazem os olhos brilharem feito estrela no céu.
Eu, o menino da lua.

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