Aperte o botão verde para confirmar



É segunda feira de manhã e estou na estação ferroviária indo pegar o trem pra uma reunião importante. Obviamente, como a grande maioria dos seres humanos nas segundas feiras, estou acordado mas um tanto considerável dormindo. O trem vem apitando alto, forte, sinto as paredes vibrando. E ele para.

Desce do trem uma senhora com um olhar um tanto desesperado e vem andando na minha direção, não sem verificar atentamente se teria alguém a observando. Ela segura minha mão direita e coloca a alça de uma mala nela. 

- Aperte o botão. É o melhor pra todos, você sabe disse. Aperte o botão!!!

Ela vira as costas e vai andando apressada. Olho para a mala presa à minha mão e não consigo me desvencilhar dela. As pessoas continuam circulando na estação de forma automática, acredito que esse seja o normal das pessoas a caminho do trabalho. Sacudo a cabeça feito cachorro molhado e entro no trem, que apita a partida. 

Me sento no meu lugar de costume e apoio a mala no chão. O vagão está em completo silêncio. Tento abrir a mala aos meus pés, mas aparentemente ela está trancada. Quando tento novamente, um pequena luz azul brilha em sua alça, o que leva as pessoas do meu vagão à loucura! A sensação que tenho é de que voltei no tempo. Cada grupo de pessoas conversa fervorosamente sobre assuntos há muito pacificados! "A Terra é plana sim", "Vacinas destroem os cérebros dos bebês", e outros tipos de delírio como "Precisamos acabar com a cristofobia", "Não existe fome neste país", "A nova ordem mundial".

Me levanto assustado e vou passando pelo vagão rumo à saída, batendo discretamente na luzinha azul pra ver se ela se apagava e controlava as pessoas, o que quer que fosse aquilo que eu carregava nas mãos.

A coisa não melhora. No próximo vagão, revestido inteiramente com as cores da bandeira do meu país, as pessoas então todas, sem exceção, com os olhos presos em celulares. Penso ter visto seus olhos desfocados, mas, assustado, apresso o passo e vou pro próximo vagão.

Um vagão vazio. De pessoas. Vazio de pessoas. Inúmeros exemplares de livros estão presos por grades com adesivos onde está escrito "Material nocivo. Cuidado". Ali eu sento no chão e respiro fundo. Estou no meio de um delírio coletivo, só pode ser. As coisas ali não fazem o menor sentido. Quando é que eu vou acordar? Que mala é essa?! Será que é tudo uma armadilha, alguma espécie de pegadinha que alguém com muito tempo à toa resolveu preparar pra mim? Vou descobrir agora.

Levanto e me dirijo decidido à cabine, ao vagão de comando, onde está o maquinista. Ele está trancado e com seguranças armados frente à porta. Me escondo o melhor que posso, mas ouço um barulho. Alguém sai de dentro da cabine. Tem as têmporas feridas e vem com passos largos e irritados. Ele olha e para na minha frente:

- Você! Pensei que não viesse mais! Faça logo. Salte do trem e aperte o botão!

Ele deixou uma espécie de cartão no meu peito quando disse isso, saiu andando e, na próxima porta, simplesmente saltou para fora do trem em movimento. Precisei de alguns minutos pra me recuperar daquilo. Um homem acaba de suicidar-se na minha frente? Era isso mesmo? Droga.

Caminhei em direção à cabine não sei como, pois à essa altura nem sentia mais minhas pernas. Os seguranças não se mexem e eu aproximo o cartão da porta, que se abre. Lá dentro, a imagem mais bizarra que eu já vi na vida:

O maquinista está sentado numa poltrona, assistindo televisão e rindo estranhamente. Ele fala sozinho, feito um lunático. O copiloto está amarrado e amordaçado na sua cadeira. Quem pilota a porra do trem?! De um lado, pessoas numeradas de 1 a 4 ruminam um dialeto completamente estranho a mim. Do 1 ao 3, estão presos em seus celulares, com olhares desconfiados, como se ninguém pudesse ver o que estavam fazendo. Cochichavam entre si. O 4 joga algum vídeo game. Do outro lado, de pé, porém adormecidos, várias pessoas com fios presos às suas têmporas e ao teto do vagão.

Ainda absorvendo aquela cena hedionda, eis que o maquinista nota minha presença: 

- Quê isso?! Tá querendo o que aqui, hein? Quem é que tá vigiando a porteira?

- Porteira?

- Volta pro seu lugar agora!

- Hum, desculpe. Mas esse trem vai mesmo para onde?

- Tá maluco, rapaz? Tô levando esse trem pra agradar uma pessoa que precisa de ajuda nesse momento. Um amigo, a friend, un amigo! Beleza?

- Para agradar?! Quem são essas pessoas nos vagões? A quem elas agradariam?

- Pessoas?! Pessoas?! - o piloto ria desesperadamente - Você usou alguma droga, foi? Nesse vagão só tem gado. E alguns porcos, claro. Só tô mudando eles de pasto, tá ok?

Caramba. Eu preciso sair desse lugar. Na verdade eu gostaria muito de acordar, mas agora até de que isso é um sonho eu tenho dúvidas. Deixei aquele cenário estranho ali e fui andando de costas, lentamente rumo à saída.

Me direcionei ao local que aquele homem tinha pulado. Quando coloquei a ponta dos pés pra fora, a mala se abriu. Dentro dela havia um botão verde retangular e os dizeres "aperte o botão verde para confirmar". Apertei o botão enquanto saltava. O trem começou a explodir, vagão por vagão. E eu, com um pé quebrado pela queda observava tudo. Meu cérebro fritava!

Loucura acima de tudo, fumaça acima de todos!

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