Fadado ao esquecimento, deitava-se sempre sem teto, mirando diretamente as estrelas, o mais sóbrio que se permitia estar.
Não ficava mais dentro da enorme casa que há muito perdera seus dias de glória. Habitava o jardim, com eras em lugares onde não deveriam estar. Se banhava na piscina suja e deixava as garrafas vazias como sementes no gramado.
Ninguém se importa com a queda de um grande homem prepotente. Nenhum mortal se preocupa com o desaparecimento de um mau deus.
Dos erros que cometeu, jamais saberia elencar qual fora o pior. Mas o que lhe arrepia a espinha foi o derradeiro: apaixonar-se por uma feiticeira. E fazer-lhe mal.
Quando conheceu a mulher, já ocupava lugar de importância. Os motivos que atraíram mulher tão bela a homem tão grande entretanto tão pouco altivo, fogem ao entendimento de todos. Seu talismã da sorte, depois que se uniram, o caminho do homem seguiu acima rumo a um enorme universo. Para o qual ele não estava preparado...
Quando se ganha tudo, a cabeça tende ao esquecimento e o peito ruma ao vazio. Não se lembrava mais da mulher que trouxera-lhe sorte. Passava por ela como se nada houvesse, um fantasma sendo atravessado.
Mal sabia ele que a beleza entrelaçada à ira se faz perigosa. Cansada e ferida, trancou-se a mulher em seu quarto certa noite. Buscou num baú escondido, há muito trancado, um grosso livro que passava pelas gerações de sua família. Há muito ela não o usava ou qualquer de seus poderes. Há muito abdicara de sua essência por ser, dos seus, a de maior poder. Poder causa arrogância em uns na mesma medida que causa medo em outros.
Livro aberto, o que fazer com um homem como este? Qual seria o maior castigo? Opulento, tudo lhe fazia vista. Por todos apreciava ser visto. Seria uma pena se...
Caiu uma tempestade durante toda aquela madrugada. O homem sentindo seu corpo esfriar num sono perturbado do qual não conseguia acordar. Enquanto isso, a bela feiticeira fazia suas malas, levando embora apenas o que trouxera consigo.
No outro dia pela manhã, o homem banhou-se e barbeou-se. Aprumou sua imagem frente ao espelho, aparou sua barba e bigode. Vestiu seu melhor terno porque aquele seria um dia importante. Importante, de fato. Mas não pelo motivo que imaginara.
Ao chegar à cozinha, cumprimentou a cozinheira que nada disse. Tocou-lhe, mas ela não demonstrou ação. Gritou, irado, e ela permanecia sem reação, como se estivesse sozinha naquela cozinha imensa. Revolto e intrigado, foi ao carro. Pediu ao motorista que o levasse ao trabalho. O motorista permaneceu encostado no carro, fumando seu cigarro. Quanta insubordinação!
Foi só por volta do fim da tarde, depois de muita raiva e confusão, que passou pela sua cabeça uma ideia inquestionavelmente impossível: ninguém o via, eram incapazes de visualizar sua figura. Estava, inexplicável e incontestavelmente invisível. Por mais que essa palavra não lhe fizesse a menor menção de ser real.
Em dois dias os jornais começaram a anunciar seu desaparecimento. Ele acompanhou, de casa, todas as notícias, sentindo na boca o gosto amargo de uma ruína que jamais conseguiria explicar. Gritou até perder a voz e de nada adiantou. Ele era um homem apagado para todos, exceto para si mesmo.
Seguiu sua vida oculta e estranha, caminhando exclusivamente à espera do fim. Acima de tudo, temia o escuro. A ausência de luz tirava dele a segurança da imagem no espelho. E, para aquele homem, restava a única coisa que fizera por toda sua vida visível, mas que, naquele momento era o que mais lhe perturbava. Para aquele homem, não restava outra coisa a não ser olhar para si.

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