Preciso escrever a crônica da semana pro jornal. Meu prazo se encerra daqui algumas horas e eu estou preso no terceiro engarrafamento do dia.
Eu não gosto do trânsito. Não gosto de me sentir preso no meio desse monte de carros sem ter pra onde sair correndo desesperadamente caso caia um meteorito ali na frente. Fica sempre presa uma coisa na minha garganta que não desce nem sai, é horrível.
Hoje especialmente, que me sinto mais sozinho do que nos outros dias, porque hoje, especialmente hoje, minha crônica não está no carro comigo. Ela simplesmente fugiu, correu, desapareceu. Esperta, deve ter percebido que hoje seria um dia bastante congestionado. Lá fora e aqui dentro também.
Sobre o que eu poderia dizer? Sobre como as ruas não suportam os carros ou sobre como nossos pescoços não suportam mais nossas cabeças? Hoje é um dia empacado.
Se ao menos acontecesse qualquer coisa nesse mundo estacionado... Um acidente terrível e cruel, um motorista que acabou caindo no sono dentro do carro e não percebeu que o engarrafamento andou. Olho pros carros ao lado e nada. Nada nada nada.
E mais um conjunto de nadas a dez quilômetros por hora até eu conseguir finalmente chegar em casa. Sento à mesa, pego o computador. O prazo já passou por mim correndo, tentei dar tchauzinho mas o dia de hoje está muito parado pra isso. Quando digito a primeira letra, um H grande e maiúsculo, meu cachorro esbarra numa garrafa de gin.
Dela bebo inúmeras inspirações, mas que só serão passadas pro jornal a partir de semana que vem. Porque a crônica de hoje é um conjunto de nadas embebidos. A crônica de hoje é só pra dizer que alguns dias na vida são assim, engarrafados.

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