Até que o cérebro (não) os separe



Um dia acordei e percebi que tinha destruído o meu cérebro. Eu não conseguia pensar.
Despertei num lugar estranho, ao lado de uma pessoa estranha, que me disse uma coisa mais estranha ainda quando acordou:
- Bom dia, meu amor!
Senti meus olhos se arregalarem involuntariamente e não conseguia dizer qualquer palavra pela minha boca aberta de onde saía um cheiro estranho.
Aquele homem se aproximou de mim pra me tocar e rosto e, num impulso inpensado, caí da cama estatelada no chão. Bati forte a cabeça.
- Quem é você?!
Opa! Parece que a pancada me fez conseguir falar, apesar de os meus pensamentos permanecerem uma névoa bizarra no meu cérebro derretido.
- Como assim quem sou eu, Carla?
E o homem ria esticado na cama. Ele está nu? 
Minhas pernas me movem até a sala, percebo que também não visto nada. Minhas mãos voluntariosas pegam o forro da mesa e me enrolam. Sigo andando por esse lugar desconhecido até tropeçar num pedaço de pano e dar de novo no chão. A cabeça sempre na frente.
- Droga!
- Carla, está tudo bem?
Excelente chacoalhada! Meu cérebro parece se reativar depois da pancada de número dois.
Raciocínio, vamos lá. Meu nome é Carla, ou pelo menos aquela pessoa lá do quarto me chamou de Carla. Bonito ele, né? 
Carla! Certo, agora que eu consigo pensar de novo preciso saber o que foi que aconteceu aqui. Me levanto, respiro fundo, e dessa vez eu mesma é quem comando meu corpo junto ao meu cérebro recém remontado. 
Chego num espaço com um monte de mini portinhas, uma janela e uma coisa num formato bastante... peculiar, pingando gotinhas de água. Meu cérebro constata e dá um grito: cozinha! Ao mesmo tempo cutuca minha garganta. Seca, muito seca. Me abaixo próxima àquela coisa em formato meio... murcho, talvez?, viro uma pequena alavanca e sai uma cachoeira dali. Torneira. O nome do objeto (ridículo, por sinal) é torneira.
Viro meu corpo de uma forma desengonçada e começo a beber daquele líquido. Acho que meu cérebro ainda está um pouco fora do lugar.
- Carla, bebendo água da torneira?! Para com isso, senta aqui, vou pegar um copo de água - água de beber - pra você. Meu amor, o que deu em você hoje?
O homem voltou, pelo menos está vestido. Eu me afasto um pouco e sento numa coisinha com quatro perninhas finas de madeira. Cadeira, urra meu cérebro. Parece que até ele está se cansando de mim.
Mas eu já penso. E consigo criar uma linha de raciocínio lógico bastante plausível. Foram necessárias duas pancadas na cabeça pro meu cérebro pegar no tranco, talvez se...
Minhas pernas me levantam e eu me aproximo de uma das mini portinhas do lugar. Armário, cérebro, ok, entendi. Minhas mãos soltam o forro de mesa que me enrolava até então, seguro as laterais do armário com determinação, franzo o cenho na minha melhor cara de humana adulta pensante e lá vou eu.
Poc. Poc. Poc. Poc.
Dói. Bater a cabeça em portas de armário, dói. Não sei quantas vezes eu consegui fazer isso até que o homem me abraçasse por trás com um espanto terrível nos olhos.
Uma coisa no meio da minha cara começou a funcionar nesse momento. Eu senti o cheiro do homem, que me era familiar. Numa fração de segundos depois descobri também que a coisa funcionante no meio da minha cara era meu nariz. 
Esse cheiro... Ele é bom. E ele me amolece o corpo. Estou no chão de novo, nos braços do homem com o cheiro bom, dessa vez minha cabeça não chegou primeiro. Ela nem chegou, na verdade.
Eu olho para ele. Túlio. O que, cérebro?
- Carla, o que aconteceu?
- Túlio.
- Sim, meu amor. Sou eu, o Túlio. Seu marido.
- Meu o quê?!
O homem, quer dizer, Túlio, parece relaxar. Ele apoia o corpo no armário e me deita mais confortável e bem menos desengonçada (aprenda com o Túlio, cérebro) e começa a rir. 
- Eu sabia que não deveria ter te deixado beber tanto assim. Acho que o nome do seu cérebro derretido pode ser amnésia alcóolica ou ressaca, amor.
Cérebros tem nome?! Caramba.
Túlio, o homem não mais nu, segura minha mão esquerda e levanta na altura dos meus olhos. Tem uma coisinha prendendo a circulação do meu dedo ali. 
- Nós nos casamos ontem, meu amor.
Aí já é demais. Meu cérebro, que tinha acabado de se reconstruir e nem deu tempo de eu descobrir qual era o nome dele, se desfez de novo, feito gosma. 
Eu, obviamente, desmaiei.

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