Literalmente

O Seminário de Literatura era o evento mais esperado do ano para o professor Adalberto. Todas as suas turmas universitárias reunidas no auditório tendo uma conversa direta com autores que ele admirava muito e estudava em aulas.

O convidado deste ano era ninguém menos que Ladir Ribeiro, considerado um dos maiores autores nacionais e responsável por poemas tocantes e profundos, como o professor gostava de dizer em sala "com finas e elegantes nuances". Hoje um senhorzinho de 67 anos, Ladir nunca gostou de estudar e menos ainda de trabalhar no que quer que fosse. Mas foi presenteado com uma imaginação incomum. Seu pai, percebendo a sina do filho, decidiu mover alguns pauzinhos pra empregá-lo numa editora. Bom, funcionou.

- Muito prazer, senhor Ladir! Meu nome é Adalberto, sou o professor coordenador do debate de hoje e um grande fã! É um prazer recebê-lo conosco, muito obrigado por ter aceito o convite. Mesmo! Imagino que sua agenda deveria...

- Imagina, Ladir! - interrompeu o senhorzinho literato - é sempre bom conversar com gente jovem. Eu gosto. Vamos lá?

O professor Adalberto iniciou a noite dando as boas vindas ao convidado e fazendo uma breve apresentação dele e de seus textos. Depois de falar sobre a vida pessoal, inspirações, sentimentos de escrita e todo aquele blá blá blá repetitivo que sempre acontece em encontros com escritores, foi que a coisa começou a ficar interessante. Adalberto iniciou a bobagem:

- Bom, para finalizar, gostaria de tratar de um dos meus poemas preferidos de sua autoria, que estudamos durante toda essa semana em sala. O poema "Calor da manhã". Se me permite, farei uma breve leitura:

"Finda se foi a noite,
levando consigo meus lamurios.
Ah, a saudade que meu peito arrebata!
Ah, a saudade dos dedos da madrugada!
Mas agora chego à manhã
com meu peito em chamas.
Do chão frio que me acorda,
afugenta meus pés um solo suave.
Sinto chegar a mim o cheiro
que me aplacará a garganta fechada
e o anseio no peito.
Sinto seu cheiro, te vejo de perto.
Como são verdes!"

- É um magnífico poema! - insistia o professor - As metáforas que contam a história de alguém que conheceu uma pessoa na noite, mas foi embora entristecido por ter que se separar dela. E fica então a saudade... Mas pela manhã a dualidade, o peito quente pelo amor de ontem, o chão frio despertando o sujeito de sonhos românticos. Até que se sente o perfume da pessoa amada que, claro, está lá! Um grande amor não se vai embora assim. Ela, com seus olhos verdes, está lá à espera para aplacar a garganta fechada e o anseio no peito da separação da noite anterior que ainda pairava em dúvida na cabeça daquele homem. Magnífico! Conte-nos então, senhor Ladir, como se deu a feitura desse poema?

- Rapaz... - pigarreou o escritor e deu um risinho - você já pensou em escrever qualquer coisa?

- Ahn...?

- Que imaginação é essa! Fiquei impressionado. Bom, vamos lá. Este poema eu escrevi num dia em que estava extremamente aborrecido porque tinha tomado um porre na noite anterior e no outro dia pela manhã percebi o quanto estava velho e meu corpo já não aguentava mais essas coisas. Saudade da juventude, sabe? Acordei no outro dia de manhã com o peito e a cabeça queimando numa ressaca sem igual! E o pior, a garganta quase completamente fechada querendo inflamar. Fui andando naquele chão frio da minha casa até a cozinha, onde tenho um vaso de hortelã. Você já sentiu cheiro de hortelã? Pois é. Especialmente naquele dia as folhas estavam muito verdes. Fiz o poema enquanto bebia o chá.

- Mas... e o amor, e o...?

- Escreva você seu amor, rapaz. Tem alguma coisa errada com meu chá de hortelã?

- Não, de forma alguma. É só que...

- Você realmente acha que a pedra de Drummond era alguma coisa que não de fato uma pedra? Hahahaha

- Desculpem, eu...

- Oh, céus! Esse pessoal da literatura é muito doido.

Não sei ao certo como terminaram essa noite. O professor voltou pra casa com a cabeça confusa e um aperto no peito definitivamente bem diferente do que dizia o poema. 

Naquela noite ele cometeu um suicídio literário.

- Um o quê?

- Suicídio literário.

É tudo que eu sei.

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