(Centro de experimentação médica. Sala restrita. Um grupo de pessoas. Um paciente.)
Faz frio e está escuro. Não aí fora, mas em mim. Quando se passa tanto tempo desacordado, o abrir dos olhos mais dói do que alivia. Nem sempre quem dorme quer de volta a luz.
Eu tinha um novo rosto, eu parecia uma outra pessoa. Do que ficou pra trás sei muito pouco ou desconheço. É como se me escondessem alguma coisa. O que sei veio de conversas que ouvi entre-cortadas ou informações que me passaram sem perceber - e não me agradaram nem um pouco.
Uma mão segura a minha. Um voz sussurra muito próxima ao lugar que estava meu ouvido: "Vai ficar tudo bem". Mas a mão é fria, e a voz, vazia.
Me tornei um experimento. Sou um rato humano de laboratório passando por experiências que eu não sei ao certo como vão me marcar.
Tentavam me manter sempre distraído. Percebia que todos na sala estavam sempre um tanto acuados, não só eu. Se a incerteza tivesse um cheiro, seria aquele ali, daquele lugar. Garanto que não é bom.
Lampejos. O tempo todo. Uma confusão imensa dentro de qualquer parte de mim. Todo tipo de sensação por fora. Minha pele - constantemente arrepiada desde então - tudo recebe. É estranho o que eles usam.
Eu era um objeto pra se manter sob controle. "Fale o necessário, não mexa aí, permaneça neste lugar, não pergunte. Não pense." Eles devem odiar mentir pra mim.
As ataduras do meu corpo eram tiradas pouco a pouco. Doía. Muito. Talvez por isso fizessem em intervalos de grandes horas, dias ou até meses. Quando me tiraram as ataduras dos olhos, disseram que o espelho sorria de volta. Estranhei.
Eu não sorria.
Sinto que fui interrompido. Quando? Como? Por quem?
Como me tiro daqui?
Um grito - imenso - guardado - fundo - na minha garganta, ecoou por toda a minha cabeça naquele momento. Os vidros explodiram um a um, as pessoas corriam assustadas. Esse não era o comportamento esperado. Mas eu...
Eu não estava mais interrompido. Acabou.
Eu fugi.

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