Pandemia



Era 2020 e eu tinha 6 anos. Nunca tive muito juízo, mas meu forte sempre foi memória. Eu lembro dos adultos começarem de um dia pro outro a ter comportamentos estranhos, cochichavam pelos cantos com caras torcidas de preocupação, não se abraçavam mais. Depois começaram a usar umas coisas que tampavam seu nariz e sua boca, minha mãe me ensinou que se chamavam máscaras e que eu também deveria usar. Já fazia um tempo que eu não ia mais pra escola, mas disso eu preferi não reclamar, porque ficava jogando bola com meus amigos no morro. Mas nossa alegria não durou muito não, logo nossas mães falaram que a gente não podia mais jogar, que era perigoso. Perigoso nada! O mais grave que já aconteceu na nossa super partida de futebol foi quebrar a janela da Dona Inês e o Mailon quebrar o braço. Tudo suave. Mas o mundo parecia mesmo muito estranho. Mal sabia eu...

Dia desses no meio da estranheza, eu fechadinho no nosso barraco, do jeito que mãe mandou, chega ela com o olho estranho, lava a mão na pia, abaixa perto de mim e tira a máscara. Ela forçou um sorriso que ficou feio, e eu sempre achei o sorriso da minha mãe bonito demais. Ela não queria me explicar, eu percebi, então me enrolou pra dar um jeito de contar que a gente ia passar um tempo na casa da patroa, mas que era pra eu ficar quieto, parece que ninguém sabia que eu ia pra lá também. Ué, e o que que tem? Quem chama minha mãe pra ficar em casa, me chama também. A gente é grudado um no outro e isso não é segredo pra ninguém. Mas eu vi no olho da minha mãe o que eu acho que os adultos chamavam de aflição, então só balancei a cabeça pra cima e pra baixo e fui com ela pro nosso quarto, arrumar minha mochila. Nem jogar uma última partida ela deixou, isso eu achei sacanagem.

A casa da patroa era grande demais, nem sei quantas da minha casinha cabia ali. E era tudo branco e gelado, parecia hospital e eu não gostei. Quando pus o pé lá eu senti saudade do vermelho da minha casa. Minha mãe me levou pra um quarto maior que o nosso e disse que eu ficasse ali. Mais tarde fui saber que aquele era o quarto dela, o quarto de empregada. Que os patrões, com medo dela trazer qualquer doença do morro, pediram que ela ficasse ali por um longo tempo, morando no quartinho. Ia ser mais fácil pra todo mundo, ela ia ficar perto do serviço e acomodada na casa grande, foi o que muito mais tarde minha mãe disse que ouviu. 

Nunca tive muito juízo, mas tudo ali era tão estranho que decidi me amiudar. Meu forte sempre foi a memória, mas eu não lembro quanto tempo fiquei preso no quarto. Minha mãe tinha direito a algumas refeições por dia, ela sempre dividia escondido e levava metade pra mim. Meia banana, meio copo de café, meio pão, meio prato de almoço... As horas do dia que ela ia no quarto me entregar comida eram as melhores, porque eu podia ver minha mãe. Ali eu via ela mais vezes do que quando a gente morava na nossa casa. Depois eu comecei a pensar que minha mãe trabalhava o dia todo e eu não, então comecei a falar que não tinha fome, pra ela poder comer a refeição inteira. Pular uma comida ou outra não ia me matar, não era nada que eu já não tivesse feito antes.

Ali dentro do quarto eu gostava de abrir a janela e ver o mar. As ondas do mar iam pra lá e pra cá como se nada estivesse acontecendo, como se o mundo estivesse normal. Mas eu sabia que não estava. Eu sentia frio. E não era o tempo frio, nem adiantava me enrolar no cobertor. Era um outro frio que só quando fiquei adulto eu entendi de onde ele vinha. Vinha do estômago, de um lugar parecido com o que vinha a fome, mas não era assim. Ele espalhava no peito e às vezes a gente ficava sem ar e meio biruta, querendo tirar do olho mais água salgada pra pôr no mar.

Foi um tempo estranho da minha infância que eu não sei muito explicar. Os dias passavam iguais, as noites também. Acho que eu comecei a, na minha linguagem de criança, me bobotizar. É como se eu deixasse minha curiosa cabeça infantil, adormecer. Duas coisas fizeram com que eu conseguisse passar dali. Olhar o mar e olhar os olhos da minha mãe. Se ao invés de tampar a boca e o nariz, tivesse todo mundo que tampar o olho, se eu não pudesse olhar no olho bonito da minha mãe, ah, aí eu tenho certeza, o que quer que fosse que os adultos chamassem de pandemia ia me pegar de jeito! De um jeito tanto que ia até morrer!

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