O claro escuro da quarentena


A quarentena é um corredor escuro num prédio comprido, é essa coisa estranha que a gente ainda não entendeu. Lá fora parece que o mundo silenciou, mas nem tanto; aqui dentro tem de tudo, de sussurro a grito, de choro a correria.

Às vezes abrimos as portas que se estendem pelo corredor, tão diferentes. Em alguns quartos há pilhas de comidas, em outros quase não há; em alguns quartos se vê uma única pessoa sozinha, em outros inúmeras que não se pode contar; há quartos frios de medo; há quartos quentes de esperança.

Pelo corredor transita gente o tempo todo, indo e vindo de algum lugar que nós ainda não sabemos qual é. Daqui não se vê saída, vê-se uma ou outra luz quando alguém abre uma porta qualquer. Aqui não temos líder, aparentemente ele pulou de alguma janela. Por todo tempo correm pessoas vestidas de branco, correm feito vultos - às vezes, se não estiver eu cedendo à loucura, vejo asas se abrindo e fechando em suas costas. De tempos em tempos aparece alguém jogando remédios pra cima e dizendo que o corredor acaba logo ali. Os mais sensatos de nós deixam os comprimidos onde estão e não seguem essa turma, estranhamente eles têm um vazio nos olhos e gotas de sangue nas mãos. Os mais sensatos de nós continuam tentando compassar o coração.

Cobrimos nossa boca, pra nos lembrar que não somos dos que correm de branco, portanto não devemos falar, mas deixamos descobertos os ouvidos. Tampamos nosso nariz, não preciso dizer por que o cheiro daqui não é bom, não é? Seguramos uma mão na outra, uns elevando preces, outros acalmando a si mesmos com afagos, mas pra lembrar que não podemos tocar em tudo. É confuso, mas é confuso agora.

Eu, as pessoas que correm, as pessoas trancadas nos quartos, esse prédio, o corredor; tudo é passageiro. Se eu fecho os olhos, em meio ao barulho ainda consigo ouvir risadas de crianças brincando em algum lugar. As pessoas que correm de branco às vezes passam chorando de alegria com uma nova vida pequenina em seus braços. No fundo dos meus olhos fechados eu ouço músicas em algum andar do prédio, poemas recitados. E, apesar de aqui dentro estar escuro, eu sei que lá fora o sol brilha e nós nunca conseguiremos apaga-lo. Sigamos, portanto, nesse corredor às vezes escuro, às vezes claro, num prédio comprido que cabe todos nós.

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