Anoitece em mim sempre que se abre essa janela. A princípio não a tinha notado, e então ela estava lá, um recorte de madeira alaranjada, na parede em frente à minha cama me observando.
Era só uma janela. Todos os cômodos têm janelas. Até que ela começou a me acordar no meio da noite e me tirar a concentração durante o dia quando a notava simplesmente aberta. Quem a abriu?
Por ali passa vento, passa sol e chuva. E, depois de muito observá-la e não entender seus mecanismos de abertura, eu realmente acreditei que ela estivesse estragada.
Chamei inúmeras pessoas para consertá-la. Algumas me xingaram, dizendo que era coisa da minha cabeça. Certa vez enquanto um deles arrumava a janela eu decidi espiar pela fechadura. Isso foi só uma vez. A forma oscilante entre movimentos cuidadosos e bruscos para com a janela me confundiu. Deveria ser um mecanismo simples - abrir, fechar - ninguém precisa dar arrancos para manusear uma janela.
E lá ela estava a me observar. Na verdade não, é uma janela. Janelas não observam pessoas. Janelas têm mais o que fazer. E então eu decidi me mudar.
O cômodo não tinha uma abertura sequer, apenas a porta que me deixava entrar por ele. Era abafado e escuro, o tempo todo. O ambiente parecia me centrifugar e então eu me peguei... Agachada a um canto, rabiscando na parede...
Uma janela.
De volta ao meu antigo cômodo, pensei. Eu e a janela. Não sei como ela foi instalada ali, eu não escolhi a madeira, ou o tamanho. Eu não sei quantas vezes ela emperrou ou abriu sozinha. Eu não sei quantas mãos ou pregos ou martelos a tocaram ou feriram. Mas pensei...
Por ali passa vento, passa sol e chuva. E, depois de muito observá-la e não entender seus mecanismos de abertura, eu realmente entendi que ela estava fixa. E tudo bem.
Só vou fazer um pequeno ajuste... Vou comprar uma cortina.

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