Eu não sei. Eu sei apenas que ainda guardo um monte de qualquer coisa aqui dentro. Quando me trancaram nesse cômodo eu só queria desmaiar. Ainda acho que desligar sempre faz bem, feito uma noite de sono depois de um dia difícil. Mas "desligar" nos últimos tempos tem um sentido perigoso, literal demais.
Não tenho tido boas noites de sono. Aliás, se existem algumas horas de sono elas estão espalhadas por aí entre os papeis na sala e as maquiagens espalhadas nos camarins. Eu era redatora e âncora de um dos principais jornais televisivos do mundo pré Governo Solstício. Desde que eles chegaram, as mídias foram enquadradas como não-conduta visual e após o Atentado dos Gritos chegou o Decreto do Sussurro. Nada se diz. Apenas minha voz é ouvida. E eu ouço diversas vozes pelos corredores...
Hoje estou presa no prédio sede dessa loucura que surgiu discreta e com gritos abafados. Às vezes me questiono se os pós-gente já não o eram antes de tornarem-se apenas desligados. Dando ouvido e prestando seu apoio às ideias absurdas do Solstício. É impressionante como as minorias estúpidas crescem quando um suposto líder as dá razão. É como se as entranhas podres desses humanos sem caráter começasse a sair pelo orifício errado. Um bafo fétido de podridão geral. Bom, sempre houve mais baratas que humanos no mundo.
Eu sinto falta de quando vivíamos em cidades. Os lugares fisicamente são quase os mesmos, exceto pela remoção de tudo que trazia alguma cor ou alegria aos olhos. Hoje nós somos pós-gente da Matriz-urbe. E eles ainda acreditam que "pós-gente" é um termo que faz de nós superiores, evoluídos.
Eles não podiam me implantar o Sascio ou me tornaria mais um zumbi. Não pensaria e portanto não teria a habilidade de falar. Enfim, o Solstício precisava de voz. E uma voz familiar pra que ninguém numa possibilidade qualquer de futuro pudesse falar que houve uma drástica ruptura, que as pessoas foram fortemente golpeadas por um Governo que subia. Não, as coisas tinham que acontecer por debaixo dos papeis, por trás das mídias e próximas aos meios de comunicação pessoal, as chamadas "redes sociais" ou "contatos sociais". Pensar que existia o conceito de sociedade me faz sentir distante de tudo... A coisa acontecia de forma silenciosa, com um ou outro grito por parte das pessoas que, depois, pra surpresa de ninguém, se tornaram os primeiros exemplares de pós-gente, os primeiros a aceitarem o Sascio e, depois, os primeiros desligados.
Mas eu me tornei o principal alimento desse chip bizarro. De tempos em tempos, não soube contar quanto tempo, sou mantida numa sala escura pra não saber se é dia ou noite, me entregam um bloco de papel com supostas "notícias". Sou levada até a varanda do palácio, de onde vejo se estender a praça logo defronte com as filas desorganizadas de pós-gente à espera do sensor. Bom, aparentemente eu sou o sensor. Governo burro. Me colocaram pra fazer a Hora da Razão. No começo era mais difícil controlar o tremor na voz com três armas encostadas nas minhas costas. Depois, bom... Já ficou mais do que claro que o Homem Gente se adapta facilmente a grandes mazelas e cenários com odor duvidável.
Mas isso foi até essa manhã. Me trouxeram os papeis pra Hora da Razão de hoje. Não reconheço quem me traz as informações, eles andam sempre mascarados, tem medo de mostrar seu verdadeiro rosto. Mas hoje o papel era diferente. Estava um tanto amassado, sujo e com pontos molhados. E tinha um rato desenhado a um canto da última folha. O que poderia ser esse rato, eu não sei. Mas certamente não era o Governo Solstício. Li o conteúdo das folhas. Antigas canções, poesias, notícias de quando o Homem Grande fazia boas coisas. Não me contive e chorei. Lembrar desse passado logo ali virando a esquina, mas tão distante. Temi pela minha vida, o que me deixou satisfeita, sinal que essa megalomania não me devorou, permaneço a mesma. Gente, não zumbi.
Terei três armas nas minhas costas na Hora da Razão. Qual delas irá disparar primeiro quando eu proferir as palavras? Será que quem as segura são ratos, da mesma forma que acredito que o era a pessoa que me entregou o roteiro?
Eu não sei. Eu sei apenas que ainda guardo um monte de qualquer coisa aqui dentro. Qualquer coisa com um pequeno traço de esperança, um feixe de luz, feito o que sai dos desligados quando chove, que encerra a coceira. Quem pensaria que a Matriz-Urbe e os pós-gente dependeriam um dia da revolução dos ratos.

Comentários
Postar um comentário