Não gostaria de começar esse relato dizendo que meu nome é
Roberta, mas por força do hábito me veio a primeira frase assim. Eu sou dessas
mulheres que trabalham de roupa social (quase) impecável, tem reuniões
importantes o dia todo, inúmeras mensagens não lidas no celular e um casamento
rompido após uns anos. Eu moro num prédio que dá vista para outros prédios.
Minha janela conversa diariamente com outras várias janelas.
Acho curioso observar o comportamento das pessoas.
Animaizinhos tão peculiares. Da minha janela eu observo os mais variados tipos
de residências e habitantes. Desde famílias tradicionais - termo que me arrepia -, idosos, jovens casais que ainda não romperam seus relacionamentos, amigos que
vivem juntos, entre outras tipologias. Moro num condomínio. O que me faz
questionar essa relação de falta de privacidade.
Nos esbarramos nas áreas comuns dos prédios e como boa
analista de pessoas que sou, sempre tem alguém com quem me encasqueto. Já foi
uma senhorinha que tinha um cachorro e eu podia jurar que eles faziam todas as
refeições juntos, a julgar pela pelota que era aquele bicho. Tentei segui-la
mais de uma vez pra ver em qual dos prédios ela morava e bater à porta na hora
do jantar pra... Não sei. Qualquer desculpa que me permitisse abrir a porta e
dar de cara com o cachorro à mesa. “Ah-há! Eu sabia!”
Certa vez peguei um casal se beijando na saída de uma das
garagens. Estranho que eu conhecia os dois de algum lugar... Num dia qualquer
penteando meu cabelo na janela vi que estavam juntos num apartamento de um dos
prédios do lado. Pra minha surpresa, algumas horas depois ele estava no
apartamento debaixo com outra mulher, a que residia lá. Eu realmente gostaria
de saber qual das duas está sendo traída e qual está sendo enganada. Se esse
cara me incomodar em algum momento eu me sinto pronta pra levar a questão pra
ser discutida abertamente na reunião de condomínio. Seria interessante.
Mas hoje é outra pessoa que pegou minha atenção. Ele era um
comum, um qualquer. Um homem de aparência normal, de corpo normal, de atitude
normal. Alguém que não chamaria – e de fato não chamou – minha atenção. Até
que... Ontem, penteando meu cabelo em frente à janela como já é de costume,
pela primeira vez reparei que ele era meu vizinho de andar do prédio de frente
ao meu. Talvez por ser ele um tipo muito comum, isso tenha me passado
despercebido. Mas acontece que naquele dia, por uma coincidência qualquer,
quando bati os olhos nele, ele estava tirando a roupa. Mas com um semblante
completamente diferente.
Me abaixei na janela pra impedir que qualquer pessoa me
visse ali, observando outra pessoa. Ele pendurou suas roupas a um canto e
sentou-se em frente a uma penteadeira próxima à janela que me permitia o
observar de perfil. Lentamente, ele vestiu uma touca sobre a cabeça, e então
uma peruca loira de um cabelo lindo se acomodava ali. Ele maquiou-se com tanta
leveza e delicadeza que eu já não conseguia associar sua imagem à daquele homem
pacato. Colou unhas postiças e levantou-se para se vestir. Percebi que tinha eu
também me levantado e estava à janela, mirando-o displicentemente. Ela me viu.
Lá estava ele, uma mulher montada. Maravilhosa, linda como
eu nunca serei em todo meu corpo de mulher. E aqui estava eu, enrolada na
toalha, descalça, sem qualquer maquiagem no rosto e cabelo molhado. Ficamos
ali, um observando a nudez do outro. Ele sorriu e saiu andando rebolando aquele
quadril de um jeito que depois eu treinaria pra fazer igual.
Acabei de me preparar pra dormir, eu, a mulher bem
resolvida. Quando voltei à janela para fechar a cortina, lá estava o homem no
andar de cima com a mulher que eu ainda não sabia se era a que ele mostrava ou
a que ele escondia. Até que uma luz imensa brilhou dentro da minha cabeça!
Quando observei melhor aquele casal, aquela mulher...
“Ah-há! Eu sabia que te conhecia de algum lugar!”

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