Humano reflexo

Eu estava no meio da avenida movimentada, a uma faixa de pedestres do trabalho quando o reflexo do sol me cegou. Foi o momento exato em que aquele carro passava, a inclinação precisa do retrovisor e o caminho indubitável do sol até os olhos. Começa aí a sensação mais estranha que já senti na minha vida.

Eu não estava mais no controle do meu corpo, ele era uma espécie de cápsula que caminhava no canteiro central, comigo dentro. O que estou fazendo? Eu pensava.

Mas minhas pernas não pareciam me ouvir ou menos ainda me respeitar. Percebi que meu coração se acelerava vagarosamente. Não sei se as pessoas da rua me olhavam, não sei nem o que estava acontecendo. Minha cápsula só percorria o canteiro central.

Atravessei uma praça e meu peito quase explodiu quando percebi que minhas pernas começaram a correr deixando cair minha bolsa e fazendo um motorista furioso buzinar e frear o que seria um enorme impacto.

Tinha uma criança, uma criança sozinha que ia atravessar a rua logo ali atrás de um brinquedo. Logo ali, onde vinha um enorme caminhão. Eu corri, ou meu corpo correu, ou não sei o que se passou, porque ali dentro eu fechei os olhos e acredito até que gritei.

Uma mulher pulou por cima da criança lançando-as à calçada. Ao que entendi, a mulher era eu. Quando olhei a criança... A criança era eu.

Duvidei da vida. Duvidei do palpável, do real, do que quer que existisse ou estivesse acontecendo. Olhei nos meus olhos daquela criança. Ela não parecia sequer um pouco assustada. Segurou minha mão. Era como se as palavras ecoassem ali dentro da minha cápsula.

"Não atravesse a rua. Não se arrependa da queimadura no dedo por falhar ao tentar fazer um bolo. Não deixe de comprar os remédios contra dor de cabeça que estão dentro da sua bolsa. Pare de virar o rosto ao passar por qualquer coisa que te reflita. Aceite que você precisava passar pela dor que hoje é uma marca de um velho aro no seu anelar. Ligue pra ela, já fazem tantos anos. Se permita pentear esses nós nos cabelos, faça mais do que te deu essa cicatriz estranha na testa. Você não consegue voltar a mim, mas me deixe chegar até você. Me deixe ser."

Talvez o carro que buzinou não tivesse parado. Talvez eu não tivesse chegado ao outro lado da rua. A intenção era essa. Percorrer e canteiro central e correr.

Mas eu estava no meio da avenida movimentada, a uma faixa de pedestres do trabalho quando o reflexo do sol me cegou. Foi o momento exato em que aquele carro passava, a inclinação precisa do retrovisor e o caminho indubitável do sol até os olhos. Quando os abri e pude enxergar de novo, deixei que meus joelhos cedessem ali no chão, no meio das pistas da avenida.

Eu não faria isso comigo. Eu não machucaria aquela criança. Eu não atravessaria a rua. Hoje não.

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