Paredes todas brancas, alguma folhagem num canto, pessoas passando de um lado para o outro enquanto outras se sentam num sofá - também branco -, seu silêncio revelando a tensão em que se encontram. Salas de espera de hospitais são sempre iguais. Hoje quem se sentava no sofá branco em silêncio eram Aline e Ricardo, que esperavam notícias do seu filho, Davi.
-
Vocês são os responsáveis de Davi Scolétte? - era um jovem médico que adentrava
a sala.
-
Sim! Como está nosso filho, doutor?
-
Agora está bem, sob todos os cuidados, podem ficar tranquilos. Os senhores
podem me acompanhar até a minha sala um instante, por favor? Por aqui ...
Os
pais ainda aflitos sentaram-se nas cadeiras de frente ao médico que, Aline
podia ler agora em seu jaleco, se chamava Luiz.
-
Bom, a informação que recebi foi a de que vocês não estavam presentes no
momento em que seu filho se acidentou, certo?
-
Sim. Davi saiu de casa com a bicicleta logo após o almoço dizendo que ia na
casa do João, seu amigo. Só agora no fim da tarde, com o telefonema do
hospital, que voltamos a ter notícias de Davi.
-
Entendo. Bom, segundo o motorista, que foi quem chamou a ambulância, Davi
estava pedalando de maneira muito acelerada o que pode ter lhe provocado um
desmaio e, nesse momento, um veículo vinha fazendo a curva em que ele se
encontrava e acabou, inevitavelmente, se chocando com o garoto que, além de
estar em estado quase desacordado, se encontrava na contra mão.
Aline
não conseguiu conter o choro ao imaginar o que havia acontecido com seu pequeno
menino. Ricardo abraçou a mulher.
- O
motorista freou imediatamente ao ver o garoto, o que reduziu o impacto do que
poderia ter sido um acidente fatal. Fisicamente, ele quebrou o braço direito,
teve alguns cortes pelo corpo e pode sentir também dores devido ao choque do
corpo e cabeça com o chão, mas nada muito grave e tudo devidamente tratado.
Quanto ao psicológico é o que quero explicar a vocês. É frequente a perda de
memória em pessoas que passaram por eventos traumáticos, é o que a medicina
chama de amnésia traumática. A desaceleração no momento da colisão faz com que
o cérebro seja jogado violentamente para frente e para trás e se choque com a
parte óssea da cabeça. Nessas circunstâncias, a vítima pode sofrer alterações
na coordenação motora, na fala e até no nível de consciência. Por fim, há o
efeito psicoemocional, no qual o cérebro, por meio de uma espécie de mecanismo
de defesa, bloqueia as lembranças relacionadas ao trauma. É impossível prever
se a vítima pode voltar a se lembrar ou não. No caso de Davi, como ele estava
desmaiando exatamente no momento do choque, e ele ainda se encontra sedado, não
há como afirmar essas possibilidades. Nós vamos o manter desacordado ainda por
um tempo enquanto fazemos mais exames. Quando Davi acordar teremos mais
respostas e, claro, vocês serão informados. Tudo bem?
-
Certo, doutor. Há alguma previsão de quando Davi poderá acordar? - Agora era
Ricardo quem falava, ou tentava falar.
-
Bom, como o choque não foi aparentemente tão grave, dentro de um ou dois dias.
-
Certo.
-
Agora, se me dão licença, tenho mais pacientes me esperando. Fiquem a vontade.
- doutor Luiz deixou a sala.
- O
nosso Davi, Ricardo!
-
Ele vai ficar bem, meu amor.
Estava
tudo um pouco embaçado, mas Davi conseguia identificar uma luz, ouvir barulhos
emitidos por aparelhos, sentir que estava deitado. Fechou ou olhos, apertou-os
bem e abriu-os de novo.
-
Pai? Mãe?
-
Davi! - Aline acariciava o filho.
-
Como você está, campeão?
-
Hã, não sei... Se eu soubesse como vim parar aqui até responderia. O que
aconteceu?
É,
parece que ele não vai mesmo se lembrar.
-
Você caiu, meu amor. Caiu da escada quando descia para tomar café.
- Eu
sabia que tinha que parar de descer aquela escada correndo, vocês já tinham me
falado!
Aline
e Ricardo sorriram. O primeiro sorriso em três cansativos dias de estadia num
quarto de hospital.
-
Bom dia! Então você resolveu acordar, garotão? - era o doutor Luiz que entrava
no quarto - Como se sente, alguma dor? - e mexia em Davi enquanto falava.
- Só
um pouco. Essas escadas... Sabia que uma vez eu quebrei meu pé fazendo essa
mesma burrice, doutor? Descer escadas correndo!
E
eles sorriram. Não era um riso de quem se alegra, era quase um riso de pena de um
menino que, ainda fraco, se culpava por algo que nem havia acontecido. Mas
ainda assim era um riso.
-
Agora vamos ver então se você aprende! Ricardo, você pode me acompanhar, por
favor?
Os
dois saíram da sala.
-
Bom, pelo que eu entendi Davi não se lembrou e vocês já trataram de resolver
com uma escada.
-
Nós não sabíamos o que fazer...
-
Tudo bem, pelos exames eu já esperava que ele não se lembrasse e é natural que
pedisse uma explicação. No mais, foi só a memória que falhou, as outras
possíveis consequências, felizmente, não foram observadas. Enfim, ele fica aqui
por mais uns três dias só por garantia e depois está liberado.
-
Obrigado, doutor!
Davi
não sonhava, só dormia sem nenhum lampejo de imaginação. O escuro dos seus
sonhos deu lugar à luminosidade do dia que nascia depois de suas
"primeiras" três noites. Ele recebera alta.
O
tempo parece passar mais rápido quando todas as noites são sempre iguais,
sempre escuras. E lá estava Davi, de terno, suando, tremendo dos pés à cabeça
na porta da igreja. Era o dia do casamento daquele jovem de 27 anos.
-
Segura esse homem antes que ele saia correndo e gritando feito um louco! - era João, o melhor amigo de Davi.
-
Cara, me segura mesmo! - e eles riam.
-
Mas eu vim mesmo pra te chamar pra entrar porque o casamento vai começar e nós
precisamos do noivo no lugar certo.
-
Mas Elisa...
- É
claro que você não vai ver Elisa antes do casamento, noivo desesperado! Vai pra
lá, cara. Rápido, ou sua mãe surta!
-
Ai, Deus!
Um
carro parou em frente a igreja. Era Elisa. Elisa era linda. Seus traços
pareciam ter saído de uma pintura. Ela tinha cabelos negros, olhos castanhos
brilhantes e boca de coração.
Uma
linda música tomou conta do lugar. Elisa entrava na igreja e seus olhos encontravam
os de Davi e se entendiam. Eles se bastavam. O casamento, tão cuidadosamente
planejado, foi perfeito. Na festa, os recém casados dançavam juntos.
-
Ainda não consigo acreditar que você é minha... - Davi ainda trazia dentro de
si aquele menino doce.
Depois
de Elisa, Davi voltou a sonhar. Há muito ele não sabia o que era acordar
pensando num sonho que durou toda a última noite e tentar decifrar os caminhos
que sua mente havia percorrido. Desde aquele tombo na escada que seus pais
tinham lhe contado mas que ele não se lembrava. A princípio Davi sonhava com
Elisa, com seus pais e seus amigos, com pessoas conhecidas. Eram sonhos
perfeitamente normais. Eram.
Certa
noite, Davi sonhou com um lugar: uma ponte que passava sobre um lago e chegava
a uma casinha muito simpática. Davi atravessava a ponte e batia na porta.
Quando ela começava a se abrir, Davi acordava. Esse sonho se repetia por dias
seguidos e sempre terminava do mesmo jeito. Terminava sem fim.
-
Bom dia, meu amor! Ou devo te chamar de papai?
-
Papai?! - Davi acabava de chegar à cozinha para tomar seu café e encontrou
Elisa já de pé e com alguns papeis na mão.
-
Sim, papai. É como você vai ser sempre chamado por alguém que daqui a pouco vai
chegar. - Elisa entregou-lhe os papeis.
Ela
estava grávida, Davi seria pai. Eles não podiam estar mais felizes! Naquele
mesmo dia Davi foi a uma loja de brinquedos para comprar o primeiro presente do
bebê. Na porta da loja havia um senhor fantasiado de palhaço distribuindo
balões para as crianças. Davi sentiu-se arrepiar quando viu aquele homem. Ele
simplesmente parara no meio da calçada sem conseguir se mover nem tirar os
olhos do outro lado da rua. "Um palhaço triste..." - era uma voz
feminina, doce, que Davi ouviu dentro de sua cabeça. Num flash Davi viu a imagem
de um palhaço com sua maquiagem já toda borrada sentado numa poltrona. Uma
lágrima descia por seu rosto. Foram segundos. Davi saiu correndo.
No
trabalho não parou de pensar um minuto no que tinha acontecido. Desde quando
esse medo de palhaços?
Algumas
semanas se passaram até que Davi resolvesse ir em outra loja de brinquedos.
Comprou uma bicicleta em miniatura que lhe chamou atenção. Já de saída parou em
frente a uma vitrine com bonecos. Eram encantadores... Chegou a pensar se
quando criança teve algum boneco. Não se lembrava. Riu da sua falta de memória
e virou-se para ir embora.
-
Psiu, hei, você!
Instintivamente
Davi voltou-se para trás para ver quem estava chamando mas não viu ninguém.
Quando seu olhar já ia passar de relance pela vitrine novamente, parou. O que é
isso? Os bonecos todos encaravam Davi e podiam se mexer. Foi um soldadinho quem
falou com Davi.
-
Davi, não é?
Davi
se aproximou da vitrine incrédulo.
-
Faz muito tempo, eu sei. Talvez você nem se lembre, mas precisamos de você e
você de nós.
Davi
abaixou e apertou a cabeça.
- Eu
não estou louco, não estou. Não estou...
-
Você sabe onde deve ir.
Davi
olhou para aqueles bonecos mais uma vez e saiu dali o mais rápido que
conseguiu. Entrou em seu carro e o trancou. Abaixou a cabeça sobre o volante
por um segundo. "O que está acontecendo comigo? Primeiro o palhaço, agora
os bonecos. Deus! Eu vou ser pai agora, não posso estar enlouquecendo."
Davi se olhou no retrovisor, estava pálido e suava. "Calma, vamos dar uma
volta e você vai ver que não há nada de errado."
Davi
ligou o som do carro no volume mais alto que alcançava e foi andando sem rumo e
sem atenção. Quando deu por si, Davi estava longe da cidade e seu carro indo
rapidamente em direção a uma ponte. Davi freou brusca e imediatamente e, no
impacto, acabou batendo a cabeça com muita força no volante. Davi desmaiou.
"Comprador
deste boneco, te peço, me ajude!"
"E
Kim dá mais um de seus saltos fantásticos! E quando encosta na ponte não é mais
uma boneca inanimada"
"O
que deseja, pequeno rapaz?"
"Vim
para a brincadeira"
"Você
consegue ouvir atentamente a uma história, rapaz?"
"Sonhei
com Guri."
"Você
gostaria de fabricar bonecos?"
"Os
bonecos ensinam tudo o que você precisar aprender..."
"Sim,
eu quero!"
"É
o seguinte: quero criar um boneco de mim, como um clone."
"Não
acha um pouco perigoso?"
"A
oficina é realmente incrível, Davi!"
"Ele
nunca se atrasa."
"Era
Davi estrangulando Davi!"
"Um...
palhaço?!"
"Mãe,
fala comigo! Eu sei que você está aí dentro agora."
"Um
palhaço triste"
Um
farol.
- Ah!
Vozes,
imagens, tudo se misturava na cabeça de Davi que acordava de repente, assustado.
Agora
ele se lembrava de tudo, seus bonecos, Albert Syn, o palhaço... E sabia onde
estava.
Davi
desceu do carro e atravessou a ponte. Bateu na porta.
-
Ah, Davi! Eu sabia que você viria! - ele ainda era o velho palhaço.
- O
que acontece agora? - Davi estava confuso, 18 anos haviam se passado.
O
Palhaço colocou nos braços de Davi um boneco, um boneco com os mesmos traços de
Davi e que parecia ter uns 9 anos; ele dormia. Davi observou o boneco, se
observou em seus braços e seus olhos marejados se voltaram para o Palhaço sem
saber o que falar.
-
Bonecos são grandes professores, Davi. E além disso, como você mesmo deve ter
visto, são mestres em dar segundas chances.

Comentários
Postar um comentário