A oficina - parte 3

Davi estava na oficina, como sempre. Olhou no relógio e se perguntou sobre o atraso de seu visitante diário. Ele nunca se atrasa. Mas logo esqueceu. A bonequinha de vestido rodado e sapatilha estava na cozinha fazendo bolinhos de chocolate. Aquele cheiro gostoso que saia de dentro do forno ia para a oficina junto com os leves e quase inaudíveis passos da boneca. O leite quase não se mexia no copo acompanhando o andar coreografado da quase-menina. Até que uma poça branca se formou na porta da oficina.
A boneca deixara a bandeja cair e estava parada, sem reação... Não acreditava no que via. Não podia!

Era alguém tentando acabar com seu próprio eu, era Davi estrangulando Davi, era o boneco se livrando da sua origem.

Com o barulho da bandeja caindo os outros bonecos correram para ver o que acontecia. Agora Groy, Kim, Sloop e Dot tentavam tirar o menino do aperto do boneco. Foi quando Kim pegou sua adaga e perfurou o boneco que finalmente largava Davi que caía fraco no chão.

Impossível. Pingavam gotas... Vermelhas. Sangue.

- Belo golpe, Kim! - ria o Pirata que acabava de aparecer na oficina.

- Você! - e Kim apontava furiosa a adaga contra o Pirata - O que você fez?

Uma risada vinha da sala. Um riso indescritível. Um riso que mais parecia um agouro. E todos deram um passo para trás quando viram aquela figura adentrar a oficina.

Não era um deles. Era humano. Aparentemente louco, mas humano. Tinha roupas encardidas de palhaço, o pouco cabelo que tinha se embolava nas laterais da cabeça, no rosto aquela típica maquiagem de palhaço. Assombrosa, já desgastada.

- Um... palhaço?! - Davi se levantava do chão ainda um pouco tonto e sem ar.

- Logo se vê que você é um deles - a voz do palhaço era quente e escura, uma nuvem de fumaça - Um palhaço, eu. Você deve pensar que sou mais um desses idiotas que vestem roupas coloridas e se passam por bobos para fazer rir as tolas crianças. - e ele ria - Eu sou um palhaço, sim. Mas um palhaço legítimo. Vocês, pobres espectadores, precisam ser enganados por nós para rir. Seu sorriso e, claro, suas lágrimas, estão em nossas mãos. Nós não "trabalhamos" para vocês. Muito pelo contrário... Vocês são nossas marionetes e até nos divertem. E é quando a vida vira as costas para você e passa seu sorriso para o rosto de outro alguém, que você descobre... É aí que você se encontra, percebe seu dom, ser um palhaço.

- Como, virar as costas, trocar sorrisos...? O que houve? - Davi já não entendia mais.

- Não temos tempo para histórias agora garoto. Você já está tempo demais no meu lugar.

- Pare! - Davi nunca tinha escutado aquela doce boneca gritar dessa maneira. Ela chorava.- Ele deve saber.

Davi se esforçava para acompanhar os fatos ainda tonto pela tentativa de estrangulamento do boneco contra ele.

- Saber do quê? Quem é você? Por que Davi, quer dizer, meu boneco tentou me matar?

- Você não vai precisar dessas respostas no lugar para onde vai. - o Palhaço agora parecia ansioso.

- Gerard Syn, sente-se e procure ficar calado! - era a boneca quem falava, mas com um olhar carinhoso e ao mesmo tempo severo e voz imperativa.

Aparentemente hipnotizado, Gerard Syn, o Palhaço, sentou-se na poltrona em que o velho Albert se sentava. Gerard até se parecia com o velho Syn.

- Bom, parece que você terá que ouvir mais uma história, meu rapaz. - começou a boneca - Se for um bom observador, deve ter reparado na semelhança de sobrenomes. Eles eram primos, Albert e Gerard. Ganharam o primeiro boneco no mesmo dia, Albert ganhou Guri e Gerard ganhou Mosly, o Pirata.

Todos olharam para o Pirata, ele estava na janela de cabeça baixa, olhos fechados, pernas e braços cruzados, como de costume. Quando ouviu seu nome levantou a cabeça e tirou lentamente o chapéu. Seus olhos miravam o longe, estavam desfocados mas brilhantes. Dessa vez, porém, o brilho não era de insanidade, era o reflexo de lembranças, saudade, talvez nostalgia. A boneca continuou:

- Até então eles apenas gostavam de bonecos, gostavam muito. Mas não sabiam nada sobre como fazê-los. Você sabe, antes de tudo o boneco escolhe o criador e não o contrário. E, curiosamente, esse cargo ficou durante muito tempo dentro da família Syn. Como Gerard era mais velho que Albert, ele teve sua vez primeiro. Como todos os outros escolhidos, ele ficou encantado com a oficina e os bonecos. Ficava aqui por dias e dias criando coisas novas. Certa vez, quando voltou para casa a encontrou cheia de gente, todos os vizinhos estavam lá. Sua mãe acabara de morrer. Tomado por uma terrível dor, ele subiu correndo as escadas e foi para o quarto da mãe, onde se trancou. E lá estava ela, na cama. Estava pálida, muito pálida. Usava um vestido e sapatilhas. Gerard não aceitara ainda sua perda. Pulou em cima da mãe e, como costumava brincar com ela, mordeu-lhe delicadamente o braço. Mas ela nada fez. Desesperado, o pequeno garoto mordeu novamente aquele braço frio. Mordeu forte, muito forte, e só parou quando sentiu o gosto de sangue em sua boca. Quando conseguiu finalmente diminuir o choro e abrir os olhos, só conseguiu ver a boneca da mãe na cadeira ao lado da cama. Só conseguiu me ver. - a boneca abaixou os olhos ao se lembrar. - Ele me pegou e me trouxe para cá sem que ninguém o visse. E, no desespero e na dor de uma criança, acabou descobrindo algo que nenhum outro criador de bonecos sabia, a nossa humanidade. Não o fato de falarmos, pensarmos, sermos vivos... Isso os outros sabiam. Mas sim, como podíamos ser tão humanos a ponto de substituir pessoas em suas vidas. Ele cortou-me e colocou todo o pouco sangue que ainda estava em suas mãos dentro de mim. - A boneca agora passava a mão numa cicatriz no seu pulso direito na qual Davi nunca tinha prestado atenção. - E então ele disse, ainda chorando...

- Mãe, fale comigo! Eu sei que você está aí dentro agora. - foi o Pirata quem disse, ainda com os olhos desfocados.

- Eu acordei e sim, eu acabei incorporando traços de sua mãe, pensando como ela, sentindo, agindo. Eu me sentia mãe daquele pobre garotinho que chorava à minha frente. E então o abracei e ele se acalmou. O que não durou muito. Seu tio, que tinha sido o criador de bonecos anterior, entrou na oficina gritando por ele. Ele fugiu. Procuraram por ele mas não o encontravam. Suas únicas companhias éramos eu e Mosly. Como Gerard não mandava sinais de uma possível vida, Albert foi o escolhido para ficar em seu lugar. O que ninguém sabia era que Gerard nunca saiu daqui. Ele tem um esconderijo que acabou servindo-lhe de lar por todos esses anos, debaixo dessa oficina. Quando viu que Albert ocupava seu lugar, ficou profundamente triste e resolveu continuar a se esconder. Foi então que começou o que ele é hoje. Foi aí que nasceu o Palhaço. Um palhaço triste...

Tudo parecia girar freneticamente. Era muita informação, muitos pensamentos, muitas lágrimas... Muita dor. Davi sentia pena daquele palhaço. "Perder o alguém mais importante que se tem e ficar praticamente sozinho..."

- Davi! - Davi correu, simplesmente correu.

Saiu da oficina, atravessou a ponte, pegou sua bicicleta onde o boneco dele mesmo a havia deixado e saiu a pedalar. Pedalava muito rápido, no ritmo de seus pensamentos. Pedalou até quando conseguiu, para o nada, pra longe... De repente parecia ter ficado tudo branco dentro da cabeça de Davi. Ele não pensava em mais nada, não tinha mais forças para pedalar. Sua respiração era ofegante, seu coração descompassado. Davi desmaiou na estrada.

Comentários