Decidiu que seria dentro do ônibus. Com muita gente perto que é pra ela ser o centro das atenções pelo menos uma vez. Pegou a linha do horário de pico que rumava à região central. Melhor impossível. Observou as pessoas ao redor e pensou quantas delas aceitariam um pouco do que ela trazia na boca. Mas nenhuma delas se interessa pelo que ela leva no peito.
Quando o trânsito apertou e o congestionamento estava formado, abriu a bolsa. Era um frasquinho de vidro marrom, etiquetado em azul. Se o rótulo fosse sincero diria veneno, mas ele mentia. Girou a tampa e aproximou o vidro à boca fria de nervoso. Está tudo bem. Ela treinou isso por muito tempo. Quase na boca, quase na boca! Ela já sentia o cheiro!
E um barulho.
E todos se sacudindo.
E o vidro caindo junto aos seus óculos e se estilhaçando no chão.
Quem ousa atrapalhar uma mulher adulta a lidar com seu livre arbítrio? Quem me deve um frasco de veneno e um fim de vida? Aconteceu que um carro bateu no ônibus. Nada grave, nenhuma morte (ainda bem). Só um susto e um vidro quebrado.
Foi pra casa e ficou pensando naquilo. Era cética demais pra acreditar em sinais. Estava brava com o motorista do carro e com o mundo todo. Mas nada fez... O tempo passa sem ver quando não se quer tempo.
Certo dia, se olhando no espelho do banheiro cansou de seus óculos quebrados e jogou fora. Cansou do batom bege e passou um vermelho. Cansou do cabelo vermelho e comprou uma tinta preta. Pintou. Olhou seus olhos pretos no espelho. Cansou de si. Decidiu cortar o cabelo e preferiu cortar fora a cabeça.

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