Passou a tempestade mas a chuva ainda cai. Debaixo da marquise eu observo pequenos pontos de luz descerem a enxurrada em direção à boca de lobo. Perdendo aos poucos a luz. subindo a rua na direção contrária vão as pessoas de olhos vazios e sem capa de chuva. Ensopados, seguem com pressa à espera da próxima Hora da Razão. Ela acontece todos os dias ao que dizem ser as 32 horas desde a instauração do Governo Solstício. E eu pensando que Orwell não vingaria...
A praça se estende defronte ao antigo palácio. As filas desorganizadas se ajeitam de pós-gente à espera do sensor. Governo burro. Enquanto banqueteiam redes de fibra, instalam pequenos chips saciadores nos pós-gente, a quem chamamos eufemicamente de desligados. "Não se deve culpá-los", um líder morto disse uma vez. Depois da crise de escassez ninguém mais aguentava necessitar de nada. Não havia comida nem como fazê-la, não havia bebida nem como brotá-la. Não havia desejo. Não havia motivo ou estímulo. Não se podia pensar.
O alto escalão de nós acabou por desenvolver o Sascio. Um chip que uma vez implantado retirava tudo dali. Não se sentia mais fome ou sede. Saudade ou dor. A anestesia necessária e pedida, ofertada a troco de nada pelo Governo Solstício. Nada... Efeitos colaterais: sem pensamentos, sem vontade, sem propósito, sem paixão. Aos poucos os pós-gente desaprenderam a falar. Já não havia há muito a comunicação escrita. As mídias foram enquadradas como não-conduta visual e após o Atentado dos Gritos chegou o Decreto do Sussurro. Nada se diz.
Mas os pós-gente ainda precisavam de controle. Porque havia um elemento biológico incomum que ainda não descobriram como controlar: o ESE. Antigamente chamávamos de sonhos. Os pós-gente são zumbis perambulando perdidos, sem razão. Mas com uma coceira perturbadora. Em tempos quando perdura a seca são abertas feridas na pele de alguns deles que eram mais ferozes. Quando o tampo azul chora, todos vão naturalmente pras ruas. A chuva faz sair os sonhos de outrora, os pontos de luz. A origem da coceira. Os que descem para o antigo esgoto. Que agora chamamos de firmamento. Nós os cultivamos. Protegemos os pontos de luz até que tenhamos número suficiente de nós para subirmos à matriz-urbe falha na esperança de que consigamos corrigi-la. Não acreditamos num pleno retorno do passado e na integridade das faculdades e astúcia de quando ainda dominava o Homem Gente. Nem no retorno do metabolismo funcional ou da gestão transversal do nosso espaço. Não. Mas dias melhores devem haver. Solstícios giram sentido ao equinócio. E nós sabemos. Porque sobrevivemos da forma que se deve ao que nos intitula. Nós, os ratos.
Quem pensaria que a Matriz-Urbe e os pós-gente dependeriam um dia da revolução dos ratos. Que a luz cairia e encontraria manjedoura no firmamento fétido pra onde um dia escoou a memória do Homem Gente transbordando junto aos dejetos promulgados pelo Solstício. A verdade é que o lugar real sempre foi o submundo. A clareza esteve sempre por aqui sem pompa. E quando o solo explodir, quando o óbvio acontecer, da intolerância mesmo entre os pós-gentes que se diziam superiormente certos e iguais, quando não souberem mais o que fazer consigo e forem massa inútil ao Governo Solstício, de tão burros se tornaram, verdadeiros zumbis desligados, quando tudo for para os ares, sobreviveremos nós. O futuro sempre foi dos ratos.

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