Codinome

Faz tempo que não te vejo na janela. A princípio pensei que eram férias, que você tivesse viajado, afinal o mês era janeiro. Mas sua janela não foi aberta até hoje. 

Não sei se você sabe, mas o apartamento logo acima do seu está pra alugar. Fui até lá dia desses como quem não quer nada, até desci um lance de escadas e cheguei perto da sua porta, mas não te encontrei. Se os apartamentos forem iguais considero que descobri que você tem um quarto, uma sala e um banheiro. E a janela onde te observo é a da sala. Isso esclarece algumas coisas. Como quando você recebeu aquela menina morena. Claramente ela queria te beijar, o corpo dela e a forma que se inclinava pra você contava isso. Mas você a manteve na sala, na janela, fumando um cigarro. 

Você fuma todos os dias às nove da manhã. Isso me intrigou por muito tempo. Fumar é ruim por si só, imagina às nove da manhã. Conseguia imaginar o cheiro do seu apartamento, de cigarro e café. Se fechasse os olhos conseguia senti-lo. Seus cabelos eram compridos, mas você os mantinha presos. E a primeira vez que te vi os puxando nervosamente, me intriguei. Logo isso foi se repetindo com mais frequência. 

Você começou a fumar mais. Andava de um lado pro outro em frente à janela com o telefone ao ouvido e a mão preocupada entre os cabelos. Era quase como se eu pudesse ver seu cigarro tremendo entre seus dedos, sua respiração ofegante, o suor escorrendo nas costas e os olhos úmidos trincados mirando o nada ao longe. O cenho franzido. Me percorria um frio na espinha. 

Começo a pensar que você era líder de alguma gangue ou organização perigosa. Um traficante. Da máfia. Alguma coisa deu errado nos seus esquemas e você teve que sumir antes que te encontrassem. Ou talvez você tenha realmente enlouquecido de vez e foi se tratar num desses lugares reclusos. Vai ver você é realmente um mau elemento que se fingiu de louco contando sua própria história só pra alguém te internar e você estar protegido. Ninguém acreditaria mesmo... "Um rapaz novo, tão bonito!" Mas isso nós não podemos contar. Divagações. 

Espero te ver de novo um dia, rapaz da janela do prédio do quarteirão ao lado. Mas não apareça na próxima hora, por favor. Já são quase nove da manhã, ainda vou fumar meu cigarro e logo a mulher de branco vem soltar meu cabelo dizendo que ele precisa ser lavado. Então espere um pouco aí. Eu já volto. Trago café.

Comentários