Quem te vê

Eu te vi pela janela do apartamento num dia nublado. Era um prédio desses com várias janelinhas iguais. Até então eu pensava que assim eram também as pessoas dali. Iguais. Enumeradas de 101 a 1505 e vivendo em padrão com o que corre o relógio. 

Parei meu trabalho para tomar café e lá estava você na janela. Eram três horas da tarde e você caminhava sem uma única peça de roupa pela sala. Gostei dos seus óculos. Especialmente quando de súbito direcionaram seus olhos para mim. Você pareceu não se importar. Abriu o vidro da janela e se apoiou enquadrando-se perfeitamente no espaço. Que imagem meus olhos registraram. Acendeu um cigarro e ao passo que a fumaça densa subia dançando, um arrepio me percorreu a espinha. 

Éramos prédios altos, você e eu. Cheios de janelas, algumas sempre abertas, outras sempre fechadas e outras ainda que se abre quando há sol e se fecha na chuva. Me aproximei da janela da minha sala e uma tonteira me acertou em cheio. Retornei um tanto cambaleante e quando olhei para a sua janela, você não estava mais lá. Num piscar de olhos, vi você no reflexo do vidro à minha frente, invadindo a minha janela enquanto seu corpo passava a pertencer, inexplicavelmente, ao meu espaço. 

Você sorriu. Eu deixei escapar uma lágrima agora que já conseguia sentir seu perfume. O café que eu segurava tinha ondas vacilantes causadas pelas minhas mãos trêmulas. Minhas pernas cederam por um segundo. O café de espalhou em cacos pelo chão e eu me segurei na mesa. Era isso. 

Senti seu toque no meu corpo. Um abraço um tanto frio, uma sensação de vapor subiu aos meus olhos que se fecharam por um momento. Você segurava todo o meu corpo. Corpo esse que, segundos depois, se chocava ao asfalto lá embaixo. Não sei ao certo, mas acho que morri naquele dia...

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