Sensibilidade

De novo ele veio. De novo as mesmas desculpas. De novo o mesmo temperamento. Mesmo assim a mulher o esperara depois de mais um dia de trabalho. Ele mal a via e já ia direto para o banho e depois, imediatamente, dormir. No outro dia, como todas as manhãs, a mulher já havia acordado e ido trabalhar lhe deixando o café pronto. E assim foi por 15 anos e alguns meses. Para ele, ela passara a ser talvez uma parte da mobília. 

Certa manhã de sol, ele acordou e se arrumou automaticamente. Passou pela cozinha, tomou seu café já pronto como sempre fazia. Teve mais um dia de trabalho cansativo, chegou em casa, foi direto para o banho e, imediatamente, cama. Mas a cama estava espaçada, parecia maior... Olhou ao redor. Não, a cama não aumentou. Será que estava enlouquecendo? De repente toca a campainha. "A uma hora dessas, quem pode ser?". Abre a porta pronto para amaldiçoar quem quer que seja que veio importunar um homem cansado a essa hora da noite. 

Foi surpreendido, não havia ninguém na porta, mas sim uma rosa com um cartão e algo parecido com um anel. No cartão estava escrito: "Feliz 16 anos de casamento!". Ele conhecia aquela letra. A letra combinava perfeitamente com o vazio na cama e o anel tinha a mesma espessura do silêncio que o cercou naquele instante. Não era uma mesa que ele havia passado do meio da sala para o canto, era de sua mulher que ele havia esquecido, da pessoa que mais se importava com ele. Como achá-la agora? Onde procurar? 

Saiu sem rumo pelas ruas e acabou chegando numa praça, onde, em seu primeiro encontro, tinha dado uma rosa vermelha para sua mulher. Lá, encontrou uma caixinha de joias que logo reconheceu. Nela, outro bilhete: "Deixo meu coração contigo, como ele sempre foi seu. Cuide dele e não se esqueça que ele bateu unicamente por você. De sua eterna Beatriz." Marcelo nunca soube o que houve com sua Bia. Desespero apenas não mostra no que ele se afundou. Arrependimento não descreve o que sentia. 

Mas afinal, se em 16 anos ele esqueceu algo inesquecível como sua amada, em quanto tempo esqueceria aquela caixinha, aquela praça, aquela rosa e aqueles cartões?

Comentários