-Ei! Não chegue perto do mar! Já está escurecendo e o
Capitão logo vai chegar. Se ele te pegar, te come no jantar e você nunca mais
volta - dizia a avó ao neto que procurava conchas na beira do mar. Não passava
de mais uma história de terror inventada para manter as crianças longe do mar.
Em termos.
Era uma madrugada como outra qualquer na cidade de
Cornerstone e o mesmo sol apontou no céu. Surpresa! Quando olharam para o fim
da praia, em meio às rochas viram um imenso navio. O navio do Capitão Ness.
Apavorados por verem que a lenda era real, os moradores da pequena Cornerstone
foram para suas casas, acenderam velas e rezaram. Alguns corajosos entraram na
grande embarcação, dois homens e uma mulher. No outro dia havia somente seus
corpos boiando na água. Os homens com seus corpos másculos separados da cabeça
e à mulher faltava uma perna e seu nariz. Mas o que queria o Capitão Ness?
Matar homens e pegar partes femininas para quê? É onde a lenda passa a ser
história.
Há tempos, John Ness se apaixonara por uma linda jovem com a
qual teve duas lindas meninas: Any e July, gêmeas. A Mulher morrera no parto.
Ele, pela falta que sentia da mulher, largou sua olaria e se isolou no mar com
as duas meninas. Ele nunca soube como, mas em um ano apenas, as duas tinham porte e mentalidade de lindas moças de uns dezessete anos. E por aí
pararam, não mais cresceram nem envelheceram. O pai nunca tentou entender,
apenas se deslumbrava com a beleza das filhas.
Certo dia, nadando no mar como sempre
faziam, Any e July encontraram um lindo rapaz. Tom era o nome dele. O pai observava
os três ao longe. Cansado de ficar parado, adentrou seu navio procurando por
algo com que se entreter. Encontrou barbantes e foi brincando com eles até
chegar ao lado de fora do navio novamente para observar as filhas. Capitão
Ness, homem de estatura mediana, corado pelos dias no mar, forte, cabelos
ligeiramente grisalhos, profundos olhos azuis. Esse homem se perdeu ao ver o
que acontecia na sua frente. O barbante cai de suas mãos sem força enquanto ele
vê o corpo de Any ser arrastado por um grande peixe que parecia homem ou homem
que parecia peixe, e o corpo de July boiando no mar sem uma perna. Ainda tonto
pelo susto, Ness aproximou seu navio do corpo na água e o resgatou, deixando-o
cair de bruços. Virando com cuidado o corpo delicado da garota e
tirando seus cabelos daquele lindo rosto, Ness percebeu que faltava ali um
nariz. Nos olhos congelados da filha, ele sentiu pavor e um fogo de ódio
percorreu sua espinha. Aí é onde se arrebenta a tênue linha entre a obsessão e
a sanidade de um homem.
O lendário Capitão Ness, que acabara de surgir, pegou o
corpo de mármore de sua filha e o manteve no navio, uma sala especial somente
para adorá-la. Aos pés daquele corpo incompletamente lindo, Ness mostrou sua
raiva e jurou vingança. Absorto em sua ira, o Capitão Ness começou a matar
todos os homens que se aproximavam do navio, ainda pela lembrança de Tom. Ainda
mais absorto em sua loucura, ele arrancava pernas e narizes das garotas que via
e achava parecidas com sua July. Ele tentava a qualquer custo reconstruir o
corpo da filha, mas nada se encaixava perfeitamente ali. Anos se passaram e ele
persistia em suas tentativas fracassadas.
Numa noite de agosto, Ness se
encontrou em meio a um nevoeiro. Começou uma tempestade terrível que fez o mar
se agitar e dar um solavanco no navio. Capitão Ness foi jogado do outro lado da embarcação, batendo a cabeça e perdendo os sentidos. Quando o Capitão acordou pela
manhã, seu navio estava preso num rochedo e três pessoas perambulavam por ele.
Sem fazer barulho, o dono do navio Trovão Choroso pegou sua foice e matou os
dois homens arrancando-lhes a cabeça sem pensar duas vezes. A mulher apavorada
tentou fugir, mas Capitão Ness mostrou o homem gentil que era e a puxou de
volta pelos cabelos. Ela começou a engatinhar freneticamente no chão, fugindo.
Aos tropeços, chegou numa sala onde havia um cadáver de pé numa espécie de
caixa de vidro. Com muito custo, a mulher reconheceu o corpo e disse num
sussurro com o pouco de voz que lhe restava: "Any". Um barulho de
ferro e ossos se partindo; o crânio da mulher. Ness cortou-lhe a perna esquerda
e o nariz. Remendou-os em July: "Ainda não é você, minha princesa".
Decidido a deixar o lugar, o Capitão jogou os corpos na água e estudou uma
forma de desencalhar o navio. Dos rochedos, avistou na praia perfeitas pernas e
um belo nariz. Era ela, era July! Mas não July sua boneca de retalhos, July
viva e linda, sua única filha caminhando pela areia. O garboso John Ness não se
esquecera de como conquistar uma mulher. Buscou seu violão no navio e pôs-se a
tocar. Any ouviu a música na areia e procurou de onde vinha. Enfeitiçada, foi
em direção aos rochedos. Capitão Ness cheirou-lhe o pescoço e afagou-lhe os
cabelos. Era perfeita!
Naquela mesma madrugada, o Trovão Choroso estava
novamente ao mar, a toda velocidade se distanciando de Cornerstone. E foi assim
por dois meses. O navio sem rumo, Any enfeitiçada por um homem que ela não sabia
ser seu pai e Ness passando todas as noites no porão do navio. Até que chegou a
noite que a loucura daquele homem tanto o fizera esperar. Capitão Ness agarrou
Any com violência, como nunca fizera antes, cravando seu corpo contra o dele.
Ainda tonta, Any sentiu uma dor terrível transpassar seu corpo.
Quando conseguiu olhar, sua perna não estava mais ali. A dor a entorpecia, a
fez perder os sentidos. Logo depois anestesiou-a da vida. Em seguida, Ness
arrancou-lhe o nariz reto e empinado. Remendou pela última vez sua boneca July
e a levou para o porão.
Colocou-a com cuidado num lugar marcado e arrancou-lhe
o coração. "Eu te amo, minha menina" foram as últimas palavras
daquele Capitão que caminhava para outro lugar também marcado e puxava uma
alavanca. Uma máquina estranha foi acionada. Suas garras rasgaram o peito do
Capitão Ness e levaram seu coração ainda quente e pulsante ao peito aberto da
filha que deu um primeiro suspiro pesado de vida - ou morte.
Estava criado o monstro.

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