Estávamos no bar, meu amigo Ítalo e eu. Depois de bons copos embebidos de silêncio ele me diz:
- Talvez a morte seja apenas a vida fantasiada pra um baile noturno qualquer...
Lembrei da minha ex mulher. Quando ela entrou naquele salão com um vestido preto maravilhoso, iluminada da cabeça aos pés. Depositei ali minha vida. No cruzar daquelas pernas eu observava o invólucro impecável do que seria minha futura companhia. Quantas vezes morri ali, dentro dela... Vezes suficientes pra ela me expulsar em despejo, feito corpo de animal morto que não precisa enterrar.
Dei mais um gole por ela.
- Ou talvez não. Talvez a vida seja apenas a morte fantasiada pra um baile noturno qualquer. Porque a morte é morte e pronto. A vida que ninguém sabe direito pro que ela é...
Roberta foi Roberta e pronto. Me rasgou. Me despejou ali procurando sentido em qualquer coisa que não fosse nela, que era tudo o que fazia sentido até então. Depois dela teve apenas Julia, que seguindo a cabeça bêbada do Ítalo deveria ser a vida. Está aí mulher que me iluminou! Eu nunca vou entender o quanto amei Julia, da mesma forma que nunca vou entender porque nunca deixei Roberta partir.
Brindei minha covardia de hoje estar só num boteco de esquina. Pra Roberta a cerveja, já meio quente e sem gás, desceu rasgando de ruim. Pra Julia a cachaça, desceu suave mas deixou aquele quente na garganta que só quem passou por ressaca de amor conhece.
- Minha hora já deu, amigo. Fique aí com sua filosofia que eu vou atrás de viver. Talvez consiga encontrar a morte no caminho...
E segui. Cerveja numa mão, cachaça na outra. Tropeçando nas ruas robertas e rolando confuso nos jardins julias.
Eu, pobre homem com tão grandes mulheres.

Comentários
Postar um comentário