Bilhete com dedicatória

O lugar onde as montanhas se encontram era um grande vazio. Um descampado de vegetação alta que se agitava inquieto como se agita o coração outrora adormecido que acaba de despertar num tremor sereno.

Ela estava à sombra de uma árvore sem folhas, esperando que o tapete seco sob seus pés a resfriasse. Ele emergia, braços e pernas pingando enquanto se sentava à beira de um lago profundo, agitando o reflexo que hora sorria, hora devaneava.

O sol ardia, a água era fria. Permanecer era fenecer, havia espaço para a dualidade. Ela tinha sede, ele precisava de calor. E a busca sempre se inicia sem rumo. Sorte deles, o campo aberto é lugar de encontro.

O lugar onde as montanhas se completam era um universo inexplorado. Era tudo! E naquele instante não cabia mais nada entre os olhos escuros que conversavam.

Ela era como vento. O refrescava e levava pensamentos para outro lugar... Ele era feito grama. Recebia com carinho pés cansados de andar... Ela saciou sua sede acariciando aquele antebraço ainda molhado. Ele se aqueceu afagando aquela pele sempre quente. E o silêncio era precioso.

Quando se fala por inteiro não há que proferir palavra. Os corpos se puxam em completude no infinito daquele abraço que fazia tudo orbitar sereno, leve, devagar...

Os pés já não tocavam mais o chão, as bocas se tocavam no sabor doce da dança não ensaiada. Tudo paira, tudo flui... E os olhos se abrem.

Sonhei com você. Essa noite, vidas inteiras.

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