Neblina

Era uma rua parisiense. De pedras escuras, lisas e geladas, que refletiam as luzes amareladas dos postes baixos. Havia postes dos dois lados, de metal bordado, na frente de grandes árvores com grandes copas que assobiavam quando o vento batia tortuosamente intencionado, bem de leve. Eu ia andando em meias pretas, os sapatos numa mão presos aos dedos ainda quentes e a outra mão carregando o paletó ao ombro. Andava devagar como andam os bêbados que querem tardar o amanhecer... Senti o vento bagunçar meus cabelos em dedos de moça quando um carro fez curva pra rua. A rua era curta e logo ele parava à minha frente. Levei a mão do paletó aos olhos, entre a curiosidade desses e o farol que me cegava. Alguém buzinou. Não era o sonoro que alerta o bêbado que corra antes da tragédia. Era um convite, quase tão sonolento e animado quanto meu torpor. Quando cheguei ao lado do passageiro vi que era uma beleza quem pilotava. Piteira dourada ao volante, ela se vestia em tom nude, com pedras que pareciam ter rodopiado alegremente na dança da dona do vestido por essa noite. Uma faixa da mesma cor no cabelo breu e plumas. A boca escarlate me perguntou:
 
- Fogo?
 
Enquanto estendia a mão para o cigarro nunca acesso e esquecido que eu levava à boca. Traguei o mistério e entre a fumaça curiosa que exalava perguntei:
 
- Companhia?
 
Ao que ela abriu a porta e eu entrei. Andamos pouco, falamos nada. Ela levava um sorriso gosto cereja e eu olhava longe pela janela entre minha fumaça. Paramos em um descampado. Ela me indicou com um polegar fino em unhas stiletto que eu descesse... Ela descalçou os pés agitados do salto e me pegou pelo braço. Partilhamos uma lenta dança sem som... Eu não saberia descrever a sensação dos meus dedos passando entre seus cabelos. Percebo aqui que a maior nudez vem vestida de fios escuros. De olhos fechados, ela dá os passos, acomoda a face em meu ombro baleado e sorri. Partilhamos uma lua aquela noite. Um gin, uma estrela cadente e um pedaço de alma que só se vê uma única vez, enquanto alguém é nada além de um desconhecido. Percebi aqui que nunca mais veria essa mulher... Não faria sentido conhecê-la. Ela é o desconhecido, é a motorista que para na rua deserta no meio da noite.

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