Você vê o motorista que te jogou pra fora seguir sem prestar socorro. Em manobras de quem tem total controle sobre o que conduz, na audácia de acreditar que o destino é certo e a rodovia é domínio. Por um momento você paira. O momento vira noite com um farol alto bem nos seus olhos e uma buzina lembrando que sua cabeça dói. Você avalia os danos. Há peças quebradas, sem prazo de reparo. Mas você consegue andar... A margem da rodovia é um lugar desconhecido. Nenhum motorista se imagina lá... É o limbo das incertezas. Você caminha, a pés descalços na grama maltratada, sentindo o alastrar das dores a cada passo. É como se o corpo não fosse mais seu. É como se tudo fosse marginal. E é.
Depois de caminhar, piloto automático sem rodagem, os carros começam a desaparecer do seu campo de visão. Aqueles todos que você via o tempo todo pelo retrovisor, percebendo cenas dentro deles e dos seus olhos, que te seguiam como se você os tivesse carregando... Esses carros pegam desvios estranhos, sem motorista. Alguns passam por você e apenas vão. Não há carona pra quem sangra no acostamento. Há asfalto quente e pés sujos. Roupas rasgadas, dor no peito, ossos quebrados e suor. Quando todos os carros cuidam de não mais passar, presos num pedágio muito atrás com seu nome nele, você percebe o momento que se instala. A neblina, o escuro que ainda não foi, a luz que ainda não chegou. Não há movimento... Você coloca o primeiro pé na pista. O segundo. Seu fôlego some quando passa um caminhão desgovernado que quase te pega. Você vê de relance o motorista... Há medo em tudo. Mas você continua mandando suas pernas caminharem. Elas doem, elas têm cãibras, elas fraquejam. Mas elas te levam ao meio das pistas, você está entre o que vai e o que volta.
A coisa mais importante que ninguém nunca vai te falar sobre rodovias: você é a rodovia. Você é o motorista que sai com expectativa de destino e leva carros atrás de você por todo o caminho, você é o motorista que será jogado pra fora da pista, você é a marginal machucada. Mas, desde o início você é também rodovia. Pista de rolamento cinza, dura, marcada e grossa. E você não só sabe qual é, como se leva motorista ao destino que agora, sujo de sangue, preto de asfalto, com cacos de vidro incrustados, nunca foi tão perceptível nas palmas das suas mãos. Só você vê a encruzilhada na rodovia. Só você pode seguir o blues, iniciar o jazz. Você é a rodovia.

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